Biblioterapia, uma nova moda?

Ao saber que eu toco violão, muitas pessoas me dizem: “Que legal, música é uma terapia maravilhosa”. Gostaria de responder: “Não é nada disso, música é uma forma de arte, terapia é outra coisa”. Só não faço isso porque insisto em ser educado, o que é uma antiterapia, convenhamos. Mas a questão é outra.
Leio agora um artigo sobre Biblioterapia. Livros como terapia. O título: “Por que procurar refúgio nos livros quando a realidade parece insuportável?” embora a autora não tenha dito que os livros servem só para refúgio, fico desconfiadíssimo quando associam formas de arte a terapia. E vem o subtítulo: “A biblioterapia pode ser um porto seguro, um alívio para nossa alma e um antídoto contra as adversidades.” Pronto, está cunhado o termo, passo perigosíssimo. O que adquire um nome tem grandes chances de passar a existir.

A autora fala em “realidade insuportável”. É verdade, de vez em quando. Em geral, para quase todos nós a realidade não é insuportável, na maior parte do tempo. Se for de fato, a pessoa precisa mesmo de terapia, ou, se tem bases concretas para não suportar a realidade, está com muito azar. Mas pode acontecer.
Não dúvida de que, lendo um bom livro, podemos nos transportar para outros universos, desligando as chaves que nos prendem ao cotidiano onde pagamos contas e trocamos lâmpadas. Mas lemos por ser terapêutico? Em que sentido? Todo explorar novos mundos é “terapêutico”? Se for, estamos usando o termo em outra acepção. Até onde entendo, terapia refere-se a curar alguém de alguma coisa, em geral uma doença. Não é o caso.

Vamos abrir uma brecha.  A palavra cura já existia em latim com o sentido primitivo de ‘cuidado’, ‘atenção’, ‘diligência’, ‘zelo’. Havia também o verbo curo, curare, de largo emprego, com o significado de ‘cuidar de’, ‘olhar por’, ‘dar atenção a’, ‘tratar’. (SARAIVA, F.R.S.- Novíssimo Dicionario latino-português, 10. ed., Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1993.) Explorei o assunto em meu livro “O Fio das Palavras“.

A vida não é uma doença. Nós cuidamos dela, cada um de um jeito. Escolhemos o que fazer com o tempo que dispomos. Alguns empurram com a barriga e deixam-se levar, outros tentam tomar as rédeas, na medida do possível. Há quem diga que vive para se divertir, pois “está aqui de passagem”. Uns querem deixar um legado, outros não. Muitos almejam a felicidade, seja lá o que isso for. Contardo Caligaris, numa entrevista recente, disse: “Eu não quero ser feliz. Quero ter um vida interessante”. Bingo.
A vida pode ser muito interessante quando fazemos arte ou contemplamos/sentimos/ouvimos uma obra. Ou podemos ser arteiros e até deixar um legado. Mas isso não tem nada a ver com terapia.
Com raciocínios enviesados, é possível concluir que tudo o que faz bem a alguém é terapêutico. Mas cai-se novamente na vida como uma espécie de doença.

Muitas formas de arte podem ser associadas à terapia psicológica. As mais conhecidas são desenho, pintura e música. Neste caso funcionam, e tantas vezes funcionam bem, como um meio de expressão e conhecimento de si, processo mediado por um terapeuta. Mas vamos distinguir claramente uma coisa e outra.

Pergunta-se à exaustão “para que serve” a Arte. Eu não sei e acho que a pergunta está torta. Não acredito que o viés utilitário tenha todas as respostas. Na maior parte das vezes, não lanço mão da Arte tendo em vista algum fim. Se um psicanalista quiser achar um motivo inconsciente ou um psicólogo evolucionista quiser encontrar uma utilidade perdida nos primórdios da humanidade, que o façam. Não é essa a experiência de quem lida com arte. O fazer ou a obra impõem-se, o artista é chamado para aquele universo. Esta é a realidade de quem ouve a voz das musas.

Por favor, não digam que tudo isso é prazeroso. “Prazer” é uma palavrinha besta, enganosa. Comer macarronada, tomar banho de cachoeira, ter relações sexuais, jogar capoeira e contemplar uma obra de arte são atividades “prazerosas”.  É possível que os hoje onipresentes neurocientistas digam que as áreas cerebrais envolvidas nesses fazeres humanos sejam muito próximas, quiçá sejam a mesma. A experiência que temos de cada uma dessas coisas, no entanto, é totalmente diferente. E quem está debaixo da cachoeira ou escutando uma canção não está muito preocupado com sua atividade cerebral.
Os doutos acadêmicos ficam nos devendo essa.

Arte frequentemente é angustiante. Pergunte a um músico quantas vezes ele tocou um trecho até sair com a expressão procurada, pergunte a um escritor quantas vezes perdeu o sono até achar a palavra adequada. Quantas vezes um artista se sentiu mal e pensou em desistir. A visão romântica e tola da arte vê apenas um gênio inspirado, a obra brotando numa espécie de êxtase. Nada mais longe da realidade.
Mesmo aquele que aprecia a arte pode ter seus momentos de angústia. Quem leu Ulisses ou Grande Sertão sabe disso. Dá trabalho destrinchar os clássicos. Ninguém se aventura em tais searas por ser terapêutico.

Arte é uma coisa, terapia é outra. Podemos juntar as duas, em determinadas condições claramente delineadas, mas não vamos confundi-las.
Lembrando: a vida não é uma doença. E, para torna-la interessante, a Arte é uma boa ideia. Para muitos é fundamental.


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