Manifesto – o filme

Manifestação de Luiz A. G. Cancello

Proponho discutir o filme “Manifesto” sob a ótica da pós-modernidade.
Para dar uma introdução, apelemos para a Wikipedia: A pós-modernidade é um conceito da sociologia histórica que designa a condição sociocultural e estética dominante após a queda do Muro de Berlim (1989), o colapso da União Soviética e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais no final do século XX, com a dissolução da referência à razão como uma garantia de possibilidade de compreensão do mundo baseada em esquemas totalizantes.
Um dos expoentes do conceito, Jean F. Lyiotard,  escreveu: “Simplificando-se ao extremo, considera-se “pós-moderna” a incredulidade em relação aos metarrelatos.” E segue: “A função narrativa perde seus atores, os grandes heróis, os grandes perigos, os grandes périplos e o grande objetivo.” (Lyotard, Jean F., O Pós-Moderno. Rio de Janeiro, José Olympo Editora, 4ª Ed., 1993, p. xvi.)

Simplificando ainda mais, é voz corrente entre os estudiosos que a pós-modernidade decretou a falência das grandes teorias. As majestosas formulações sobre a História e sobre um sem-número de atividades humanas, aí incluída a Arte, enganaram-se redondamente. Todas elas, supunham um dado desenrolar das coisas humanas, mas foram desmentidas pelo Tempo. Não passaram pelo crivo do Futuro. O devir mostrou-se muito mais imprevisível do que se pensava. Hobsbawn, por exemplo, estima que um economista no nível de um Prêmio Nobel consegue prever os rumos da Economia até uns dois anos. As teorias da História de Hegel, Marx e outros não deram conta dos caminhos do mundo.
Os grandes manifestos artísticos foram, quase todos, elaborados até os anos 60 do Século XX. Um dos textos mais importantes do Brasil, o Manifesto da Poesia Concreta, data de 1956. A partir daí poucos grupos se atreveram a tanto. De certo modo, uma declaração desse teor aponta um futuro, um modo de fazer a Arte e, como vimos, os frenéticos tempos modernos são tão plurais que desmontam qualquer estrutura montada para explica-los e/ou prevê-los.

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Depois de assistir ao filme, com tanta verborragia derramada em uma hora e meia, é natural que cada um dos espectadores tenha retido em sua memória um grupo limitado de expressões e palavras-chave. Os termos que se fixaram em mim foram: Rapidez, Verdade e Não-Autenticidade, Nada é Original, Vórtice, Nem Passado nem Futuro.
Além disso, chamou a minha atenção o fato de uma só atriz interpretar todos os personagens principais e as falas desconectadas dos ambientes em que foram proferidas.

Numa rápida vista d’olhos pelos termos, vem a ideia de uma procura desesperada e imediata pelo cerne da Arte. Não se procura definição, mas o espírito. A pergunta “O que é Arte”? não se apresenta, a fala da atriz se atém mais ao “como fazer”. Tentando outra aproximação: como criar um ambiente onde se possa, de imediato, reconhecer a Arte como tal? Refinando: como criar as condições para que a Arte emerja e cause o impacto desestruturante que é o seu escopo? Ou ainda: em que condições a Arte se mostra em toda a sua pujança, envolvendo artista e espectador em seu vórtice criador e irresistível?
Todo esse volteio é uma tentativa de escapar da formulação de uma “essência” metafísica, como diz o texto de um dos manifestos. Quando se tenta atingir alguma coisa sem o pensamento essencialista, há de se demorar na descrição, até que a configuração do fenômeno salte aos olhos, revelando sua existência numa epifania. Por isso alguns filósofos dizem que o Século XX é o século existencialista, opondo-se ao essencialismo dominante em tempos anteriores.
Será possível desmontar tudo o que foi feito até aqui? Chamo o apoio de um estudioso que, desde a década de 1990, detecta esta tendência:

A antiarte pós-moderna não quer representar (realismo), nem interpretar (modernismo), mas apresentar a vida diretamente em seus objetos. Pedaço do real dentro do real (veja as garrafas reais penduradas num quadro), não um discurso à parte, a antiarte é a desestetização e a desdefinição da arte. Ela põe fim à “beleza”, à “forma”, ao valor “supremo e eterno” da arte (desestetização) e ataca a própria definição de arte ao abandonar o óleo, o bronze, o pedestal, a moldura, apelando para materiais não artísticos, do cotidiano, como plástico, latão, areia, cinza, papelão, fluorescente, banha, mel, cães e lebres, vivos ou mortos (desdefinição).
(Santos, Jair Ferreira dos, “O que é pós-moderno”, Editora Brasiliense, 9ª edição, 1991, pgs. 37 e 38.)

Na ânsia da ruptura, a Arte desliga-se das técnicas e matérias tradicionais, espalhando-se pelo mundo, contaminando qualquer comportamento e/ou objeto que esteja ao alcance. Nesta miscigenação, resta perguntar: enfim o que vai definir a Arte, daqui por diante? Em breve o assunto voltará à consideração deste texto.

As falas do filme sugerem que tudo precisa ser rápido, de modo a que não se remeta ao impacto artístico à sua história (passado) nem se pense em suas consequências (futuro). O sonho, pelo envolvimento que causa, pode servir de modelo, mas deve-se também escapar dos modelos. A espiral das escadas sugere o vórtice, outro modelo. Será que é possível livrar-se deles?

Cabe aqui uma observação. Para boa parte dos artistas, o fazer artístico se impõe, é uma vocação, do verbo vocare, ser chamado. As complicadas definições e desdefinições não competem a ele, deixa ao crítico (que muitas vezes lhe é profundamente antipático) essas firulas teóricas. O artista sabe (de modo epifânico) o que é a Arte. O crítico e alguns artistas tentam colocar em palavras esse apelo. Mas, na época em que as palavras adquiriram autonomia, desligando-se (desde a Linguística de Saussure?) daquilo que denotam, a tarefa se torna inglória.

É de se notar a desvinculação dos conteúdos dos discursos dos lugares onde os manifestos foram lidos. Chamo outro especialista para aproximar o problema. Ele também escreveu na década de 1990, o que demonstra que as questões levantadas pelo filme não são novas, estão em cena há 30 anos ou mais.

Suponhamos um trabalho extremamente simples e anônimo, como o empilhamento de três ou quatro dormentes de linha férrea. Isto perfaz, também, uma estrutura mínima. Se algum de nós desse de frente com tal objeto na rua, fora de um espaço destinado à arte, certamente não nos deteríamos para observá-lo, dado o caráter “anônimo” ou “trivial” dessa estrutura.
A simplicidade, o anonimato do trabalho da minimal, juntamente com sua tentativa de desvincular-se da personalidade forte do artista (ainda que moderno), acabam por fazer com que esse tipo de manifestação necessite de um espaço institucional – museu, galeria ou lugar semelhante – que, de saída, dê estatuto artístico ao material apresentado, de modo a fazer com que objetos tão simples, tão singelos até, mereçam uma atenção semelhante à que dedicamos a um Matisse ou a um Picasso.
(Naves, Rodrigo, “O lugar da experiência na arte contemporânea”, in Artéria _ Santos revista, ano III, nº 4, junho de 1992, pgs. 97-98.)

Ou seja: quando tudo é arte ou nada é arte, só se reconhece a Arte por seu local geográfico. É interessante pensar, aqui, a situação recorrente no filme, o deslocamento do discurso sobre a arte dos locais em que se esperaria que fossem proferidos. Ouve-se, num trecho, “Não mais museus!”. De certa forma, até mesmo este último reduto espacial da problemática definição da Arte é desconstruído.

Uma só atriz interpreta os papéis dos arautos. Aqui entramos ainda mais no terreno das suposições, da multiplicidade de possíveis interpretações.
Uma das vertentes da pós-modernidade enfatiza a questão da identidade. Novamente combate-se o essencialismo, a identidade dada com tal, tentando uma abordagem múltipla, formada a cada momento, cambiante. camaleônica. As discussões sobre o multiculturalismo, sobre a transexualidade e as intensas trocas culturais do mundo globalizado são objeto de estudo. A subjetividade não é dada de uma vez por todas ou por uma determinação biológica, mas é fluida, sinuosa, a um só tempo adaptada e revolucionária, por estranho que possa parecer.
A escolha de uma atriz que se transmuta, a cada parte do filme, em um personagem diferente, apresenta ao espectador essa mutabilidade possível. Um só está em tudo, tudo é diferente e o mesmo, a Arte (com sua voz uma e múltipla!) atropela tanto uma dona de casa que serve o almoço como um mendigo ou uma operadora de ponte rolante. Esta interpenetração ao infinito tende à fragmentação, outro ponto muito caro ao conceito de pós-modernidade. A Grande Narrativa esfacela-se em milhares de pequenos discursos ocasionais e fugidios.

Mas o que se espera com esse filme? O que ele traz de desilusão ou de esperança? O que mostra?
Ao ver deste pretensioso comentador, a busca desesperada pelo cerne da Arte escancara um mundo desencantado — fragmentado, se quiserem. Como se o apelo fosse: Pelo amor de Deus, deem-me algo com que eu possa me encantar, algo que possa me tirar de um discurso interminável e vazio, algo que restitua a emoção perdida em algum lugar e tempo que não se recupera mais. Mas Deus está morto, bradou Nietzsche, resumindo o niilismo de uma época.
Então, a quem apelar?


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