Roda Gigante, o filme.

Quero abrir este comentário dizendo que não sou um expert cinema. Em geral faço a apreciação dos filmes a partir do que percebi e senti, sem ler as críticas feitas por aqueles que entendem do tema. Desta vez foi diferente. Dei uma olhada no que os entendidos escreveram. Notei que todos se preocupam em situar o filme na obra de Woody Allen.
Lembro-me aqui de uma proposta do Foucault. Ele propôs que, durante um ano, os livros fossem publicados sem o nome do autor, para que autoria não influenciasse a crítica do texto. Claro que isto nunca aconteceu, nem vai acontecer, mas é uma provocação interessante, para que apreciemos a obra sem o viés já condicionado pelo que o nome que aparece na capa. E, se acontecesse, talvez eu não assistisse o filme, pois fui vê-lo atraído pelo nome do diretor.
Foi muito interessante ler a grande variação das avaliações. Enquanto uns consideram o filme mediano, outros o elogiam, chegando até a considera-lo uma das melhores obras do cineasta. Essa diversidade de opiniões não é rara na apreciação de obras de arte, como sabemos. A única unanimidade foram os elogios ao desempenho da atriz Kate Winslet, sem dúvida excepcional.

Achei o filme genial. Em certas passagens fiquei num nível de tensão que há muito tempo um filme não me provocava.
A trama concebida por Woody Allen que também assina o roteiro, foi desenhada para colocar Ginni (Kate Winslet) num conflito muito bem pensado, que envolve paixão, crise da meia idade, questões de fidelidade e projetos de vida frustrados e esperança de resgatá-los. O filme é centrado na personagem principal; os outros papéis são menos complexos.
O cenário do parque diversões é muito bem bolado, funciona como um palco, puro teatro. As cores, principalmente os vermelhos, acentuam o fundo em que se passa a história. A música da época é precisa ao pontuar as cenas, e não poderia ser de outra maneira, em se tratando de Woody Allen.
O retrato da classe média americana dos anos 50, que aspira uma grande vida, mas acaba sucumbindo à realidade, às necessidades de sobrevivência, é retratado de forma impiedosa e sem concessões.
O filme é permeado pela questão das escolhas e das limitações sociais, além de reservar um papel importante para o acaso, quando acontecimentos improváveis convergem para construir o solo da trama, sob a batuta inteligente do roteirista. Vemos o conformismo expresso pelo marido da protagonista fazendo oposição aos projetos frustrados de sua esposa, que aspirava ser atriz, mas é garçonete, ou representa o papel de uma garçonete? A filha de um, que reaparece de repente, por escolhas insensatas na vida, e o filho piromaníaco de Ginni, denunciam o fracasso da recomposição forçada de famílias destroçadas. A emergência das paixões, cujo pivô é um salva-vidas com pretensões literárias, completa o microcosmo onde tudo vai acontecer.
Há uma escolha muito interessante: o salva-vidas é o narrador do filme, falando às vezes diretamente ao espectador. O enredo tem elementos de alguns livros que ele cita, principalmente de Eugene O’Neill segundo alguns críticos, que veem também no filme a estrutura de tragédias gregas.
Como a obra não foi muito badalada, fui assisti-la sem grandes pretensões, atraído, como já disse, pelo nome do diretor. Deparei-me com uma oportunidade para refletir sobre questões que envolvem destino, escolhas, representação, convergindo para a pergunta inevitável e sem resposta: afinal, o que é a verdadeira vida?


Um comentário sobre “Roda Gigante, o filme.

  1. Cancelo, aprecio bastante seu texto, este é o segundo ao qual tenho acesso. Eu também fui atraído pelo diretor, li antes que o filme estava indicado entre os piores de 2017 junto de Mãe. Discordo da avaliação que os levaram àquele lugar. Ambos são filmes que acrescentam e esclarecem o lugar fundamental na vida humana, o das emoções. Entendo que a piromania é uma das possibilidades na qual se extravasa o conflito de uma biografia conflituosa do garoto como os de tanta gente. Agora acho que todas as vidas vividas são as verdadeiras e limitadas sempre pelos modelos impostos pelo tempo e sociedade na qual se desenvolvem, poucos além dos artistas têm acesso real aos seus próprios sonhos e talvez cada vez mais o lugar dos acasos na tecitura daquilo que posteriormente será entendido como destino porque as determinações sociais parece que vão se diluindo. O cenário de Coney Island é perfeito para representar o sonho americano e Wonder Wheels é muito melhor do que roda gigante. Naquela época multidões buscavam aquele lugar de lazer e sonhos que inspiraram as Disneylândia, e se a gente ler Jonathan Franzem vai descobrir que a vida da classe média oferecia muito mais perspectivas do que hoje quando a concentração de renda é muito maio assim como a educação e a saúde são muito mais caros. O filme vale a pena!

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