Divagações para o Dia do Psicólogo de 2017


Vou me lembrando.

Comecei a faculdade de Psicologia no final dos anos 60, formei-me em 1971. Naquela época frequentei dois grupos de estudos, com o Dr. Pethö Sándor, jungeano, e o Dr. José Angelo Gaiarsa, reichiano à sua moda. Entre arquétipos e couraças, fui formando uma concepção de homem.
Ao mesmo tempo li, com muito interesse, o livro “O Paciente Psiquiátrico”, de Van Den Berg. O holandês mostrava, num texto precioso, a visão fenomenológica que eu retomaria muitos anos depois, já na década de 80, na Associação Brasileira de Daseinsanalyse, estudando a obra de Heidegger e de Medard Boss.
Além dessas andanças por teorias várias, tropecei em Michel Foucault, quando participei da intervenção no Casa de Saúde Anchieta, e precisava de alguma teoria para fundamentar o que via e fazia. A fluidez do pensamento do filósofo francês anunciava a pós-modernidade, que vim a estudar depois.
Durante todo esse tempo tive também interesse em ler as pesquisas científicas em Psicologia. O advento da internet, em 1996, possibilitou-me o contato com as bibliotecas virtuais, que frequento desde então.
Minha leitura mais recente vai para os livros de Steven Pinker, psicólogo evolucionista de vasta cultura. Sua última obra, “Os Anjos Bons da nossa Natureza”, marcou-me profundamente.
Entre essas andanças, que julgo as mais relevantes, visitei as mais diversas leituras e alguns grupos psicotudo, ficando com um caleidoscópio na memória, onde me esforço para distinguir formas e cores.
E, de vez em quando – não sempre, por que é pirante – me dou conta de uma enorme salada mista de ideias, dogmas e estruturas. Em quantas visões da Natureza Humana esbarrei? O que ficou de tudo isso?
Depois de me sentir como uma bola de bilhar, ricocheteando nas tabelas teóricas, sem saber em que caçapa conceitual cairia, ou mesmo se cairia em alguma, acho que cheguei a um lugar capaz de dar conta dessa confusão, provavelmente para escapar da piração a que me referi. Como sempre, nada garante que é um sítio seguro, e não sei se amanhã estarei tão convicto das formulações de agora.

O maior ensinamento que tirei do estudo da obra de Heidegger foi, dito aqui a meu modo, o seguinte: A única Natureza Humana é a compulsão do homem em conceber uma Natureza Humana. E cada uma delas lhe veste, como pele, provisória ou definitiva. E cada uma delas tem sua mitologia para explicar de onde viemos, para onde vamos e o que estamos fazendo de nossas vidas.
O cliente chega a nós a seu modo, com o seu jeito de ser, sua maneira de encarar o homem e o mundo. Não tenho o direito impor-lhe uma visão diferente da que ele traz. Cabe a mim entender o universo que ali se esboça e achar as brechas para que o sofrimento apareça, o diálogo se faça e a comunicação se torne fluida.
Sabemos, depois de um longo percurso, que são muitos os mundos possíveis.

Fico bem feliz ao ver que já não estamos tão fechados em “linhas”, como éramos nos primórdios da nossa prática. Hoje mando clientes para terapeutas comportamentais, recebo indicações de psicanalistas, e todos passamos a confiar mais nas pessoas e ser menos apegados a ideologias teóricas.
Se posso ter algum otimismo em nossa profissão, esta é a mensagem.

Quero acabar este breve texto para o Dia do Psicólogo com uma observação. Temos uma profissão muito estranha e, talvez, a mais antiga do mundo. Imagino que, nos inícios da humanidade, um homem sentou-se numa pedra e solicitou outro homem para contar-lhe seus problemas para obter algum tipo de alívio. Somos tão antigos como a humanidade e tão enigmáticos quanto a nossa existência. O que é isso de ter a esperança de cura ao falar com o Outro? Há mil respostas, ou nenhuma. Mas acontece, como sabemos desde sempre.
Creio que todos nós, algum dia, paramos e fomos tomados de um certo estranhamento pela nossa atividade. Acho isso ótimo. Se alguém tem certeza absoluta do que está fazendo, nessa fascinante atividade de psicoterapeuta, me diga. Ficarei muito espantado.

Luiz A G Cancello


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