Ah, o Amor! – 134

ahoamor - figura

Ah, o Amor! – parte 134

Luiz A G Cancello

— Come essa última fatia de queijo.
— Eu não, já comi o suficiente.
— É só pra liberar o tupperware.
— Deixa aí, oras.
— Vai ficar um tupperware só com um pedaço de queijo?
— O que é que tem isso?
— Come de uma vez, a gente já põe o tupperware na pia pra lavar.
— Come você.
— Já comi bastante. Dá um fim aí.
— Acho muito engraçado. Por que eu?
— Eu comi o penúltimo pedaço, você come o último.
— Ah, tem uma regra. Uma vez cada um.
— Mais ou menos. Não é uma regra estipulada, mas é de bom tom.
— Mas que bom tom é esse? A gente nunca teve essas coisas.
— Engano seu. A gente nunca falou dessas coisas, mas elas são implícitas.
— Quer dizer que eu sigo umas leis implícitas e não estou sabendo?
— Todos nós seguimos. Há um contrato social não escrito, sempre.
— Senhor! Rousseau e o queijo! É demais pra mim.
— Come aí.
— Em nome de Rousseau?
— Pode ser, desde que a gente libere o tupperware.
— Tá. Aí você lava a louça.
— Não quero que você imponha condições para comer. Não faz sentido.
— Mas eu só como esse pedaço se houver uma boa razão.
— Não precisa. É uma questão de bom senso.
— Bom senso é tudo que não está havendo aqui.
— Você acha que essa conversa reflete alguma dificuldade no nosso relacionamento?
— Eu acho que a conversa reflete sua saúde mental.
— Sem essa. Eu só quero tornar as coisas mais fáceis e lógicas.
— Mas fáceis? Fácil é guardar o tupperware na geladeira. O queijo não vai estragar.
— Eu vou ficar pensando nisso o dia todo.
— Ainda bem que estamos no café da manhã. Se fosse à noite ia te causar insônia.
— Pode crer.
— Escuta aqui. Você está falando sério, ou essa conversa é só pra me perturbar?
— Eu comecei de brincadeira, mas agora tá me dando uma aflição danada.
— Tive uma ideia. Vamos jogar fora a fatia de queijo.
— É uma solução extrema. Não sei se vou ficar em paz.
— Sabe de uma coisa? Vai se catar.
— Pode me xingar, fazer qualquer coisa, mas por favor, come essa fatia de queijo.
— Última chance: você sai daqui e volta em cinco minutos. Quando voltar a fatia já desapareceu e o tupperware vai estar na pia.
— E eu nunca vou saber o que você vai fazer com a fatia?
— Não.
— Isso é demais pra mim.
— É a sua última escolha.
— Não sei se eu consigo.
— Sai de uma vez, antes que eu me arrependa.
— Eu me sinto como alguém no corredor da morte, tendo de escolher o último desejo.
— Sai de uma vez.


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