Luiz A G Cancello
Houve um tempo em que eu acreditava com firmeza na transformação do mundo e na sabedoria dos homens. Buscava o conhecimento com paixão, lendo as mais variadas matérias que pudessem ampliar meu repertório de informações e teorias. Tinha a ambição de chegar a algum ponto em que vislumbrasse a totalidade. Pensava até que esse clímax poderia se dar no último momento da vida. Se, um segundo antes de morrer, eu chegasse à Grande Compreensão, a vida teria valido a pena.
Os anos foram passando e, quanto mais eu sabia, mais fui percebendo que tinha coisas demais a aprender. Os livros, as conversas com quem eu reputava sábio, só me faziam perceber o quanto teria de percorrer para chegar a um parco entendimento de apenas uma parte da realidade.
Um dia fui atropelado pela pós-modernidade, definida como “a falência das grandes teorias”. Percebi então a falibilidade de explicações abrangentes, a imprevisibilidade dos acontecimentos históricos, o papel do acaso na ordem das coisas, a minha indigência frente aos fatos, a perplexidade com o futuro.
Fui me dando conta da impossibilidade de abarcar o todo, talvez até da inexistência desse tal de “todo”, renunciando àquela ilusão da juventude, ainda inebriada pela ambição de abarcar o saber humano, querendo bebê-lo com avidez, sem jamais se saciar.
Comecei a achar tudo muito confuso. Pessoas inteligentes e preparadas brigavam até o fim por suas opiniões divergentes frente a um mesmo fato ou processo histórico, principalmente político. Um dia eu soube que há um sem-número de lógicas, não mais aquela dos silogismos que aprendemos nas antigas aulas de Filosofia. Ah, sim, um estudo concluiu que há 23 maneiras de se viver a sexualidade, que já não sei distinguir de gênero ou orientação. Tropecei numa tal teoria das cordas, que talvez conteste o Big Bang. E recentemente li que nosso corpo é constituído principalmente de bactérias, temos um tal de bacterioma, somos muitos em um. Filósofos já falaram na impossibilidade do indivíduo.
Tudo piorou quando estudei os rudimentos das Ciências Cognitivas. Quanto mais se investiga a Razão, um dos pilares em que me apoiei tantos anos, mais se constata que a racionalidade é falha, tem serventia para nos justificar e nos agregar, mas não para atingir a verdade, seja lá o que isso for.
O grande plano de atingir o todo orgânico ruiu aos poucos, o tempo moderou o projeto megalomaníaco, vislumbrei toda a restrição do meu repertório cognitivo. Fui diminuindo a abrangência dos projetos, tomei consciência da minha pequenez, até me sentir um micro-organismo. Ou diversos micro-organismos, a crer na moderna Biologia.
Durante muito tempo procurei encontrar algo sólido, o monolito de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, o meteoro Bendegó, que sobreviveu ao Incêndio do Museu Nacional, um dado criptografado na nuvem cibernética e imune a vírus. Um dia acreditei nessa possibilidade, mas tudo o que é sólido desmanchou-se no ar. Talvez a verdade seja etérea.
Já mudei de ideia mais de uma vez, talvez ainda ache outro jeito de chegar a um ponto culminante da existência. Pode ser, também, que a pretensão de atingir esse clímax seja uma grande bobagem. Pensando bem, é o mais provável. Mas alguma indagação sempre se impõe. Percebo hoje que a busca da transcendência é um vício, uma vez instalado é difícil de se erradicar, mas tentei com fervor.
A velhice me fez assumir a insignificância com naturalidade, como se sempre tivesse sido assim. O problema é que custei a percebê-la. Ainda busco, aqui e ali, algum fragmento de saber, para dar conta de dúvidas pontuais, meros espasmos. Frente a tudo isso, mudei radicalmente meu objetivo transcendental. Agora quero atingir a sensação de completa ignorância. Deve ser libertador dar-se conta de que tudo é uma grande ilusão. Contemplar o Caos será a glória suprema. Se, um momento antes de morrer, eu puder dizer, gostosamente e com convicção, “Não entendo porra nenhuma”, a vida também terá valido a pena. No mínimo, foi divertida.