The Square

Luiz A G Cancelo

Tentei destacar alguns pontos do filme, que aborda temáticas muito diversas, impossíveis de dissecar num texto simples. Procurei evitar dois termos óbvios, “limites” e “politicamente correto”, para deixar que outras dimensões do discurso possam aparecer.

Arte Moderna, Espaço e Significado.
Em 1992 o crítico de arte Rodrigo Naves veio a Santos falar sobre “O lugar da experiência na arte contemporânea”. A palestra foi transcrita na Artéria – Santos Revista, num tempo que a prefeitura tinha uma revista de cultura. Eu era o coeditor da publicação.

Seguem-se dois excertos do texto:

Suponhamos um trabalho extremamente simples e anônimo, como o empilhamento de três ou quatro dormentes de linha férrea. Isto perfaz, também, uma estrutura mínima. Se algum de nós desse de frente com tal objeto na rua, fora de um espaço destinado à arte, certamente não nos deteríamos para observá-lo, dado o caráter “anônimo” ou “trivial” dessa estrutura. (…)
A simplicidade, o anonimato do trabalho da minimal, juntamente com sua tentativa de desvincular-se da personalidade forte do artista (ainda que moderno), acabam por fazer com que esse tipo de manifestação necessite de um espaço institucional – museu, galeria ou lugar semelhante – que, de saída, dê estatuto artístico ao material apresentado, de modo a fazer com que objetos tão simples, tão singelos até, mereçam uma atenção semelhante à que dedicamos a um Matisse ou a um Picasso.
(Artéria – Santos revista, ano III, nº 4, junho de 1992, págs. 97-98.)

Logo no início do filme, Christian responde a uma indagação de Anne, a repórter americana com que terá um encontro amoroso. Ela pede a ele que explique uma confusa declaração escrita do site do museu. O texto fala em Exposição versus Não-Exposição, em Lugares versus Não-Lugares, em algo como Arte e Não-Arte. Ele responde com as palavras do brasileiro Rodrigo Naves, ditas há 26 anos: que, na arte conceitual, um objeto trivial só adquire (ou pode adquirir?) o status de Arte se estiver no espaço de um museu. É a Geografia que o define. A resposta do curador pouco tem a ver com o texto do site, mas aí está o mote de todo o filme: respostas esdrúxulas para perguntas nonsense, desencontros travestidos de encontros. Tudo o que não é parece ser – e vice-versa.

O Espaço da Civilização.
Qual é a condição de possibilidade da civilização? Que espaços definem um homem civilizado, se quisermos usar a metáfora espacial? Onde estão suas fronteiras, qual é a sua forma? Um quadrado? Então, nunca deixamos de ser quadrados?

Há mais coisas em jogo no filme. The Square é uma zona de segurança ideal, que pretende vincular (como é característica da arte performática) a obra ao comportamento de espectador. Vida e Arte, outra metáfora, a vida como obra de arte, a Estética da Existência, tão cara a uma elite e explorada por Foucault em seus trabalhos tardios, é um dos possíveis fios condutores da trama. Mas o filósofo francês fez um trabalho primoroso com o conceito. No filme, os personagens suecos parecem procurar o ideal da confluência entre o Bom, o Belo e o Verdadeiro, problema clássico da Filosofia, hoje com uma conotação no mínimo ingênua, como ingênuo e desastroso é o esforço de manter a postura civilizada.
Por que é tudo de mentira, não é mesmo? O diretor do museu bem o sabe. Numa cena emblemática, enquanto tenta se desvencilhar da repórter que pretende “discutir a relação” (uma relação muito pouco verdadeira para Christian), a gerente dá a notícia que a instalação de pequenos montes cascalho foi alterada pelo pessoal da limpeza. Christian mostra que sabe do embuste estético, ao propor que refaçam os montes a partir de fotos, sem contar para ninguém. E, por favor, não chame a seguradora. Isso vai ser egoisticamente Bom e mantemos o pretensamente Belo. Ninguém vai desconfiar que não é Verdade.

As Denúncias de Anne.
Desde que pergunta sobre o significado hermético de texto no site do museu, o papel da americana Anne é de fazer um contraponto com a atitude sueca.

A atitude civilizada precisa ser mantida, a ponto de suportar com elegância o homem com Síndrome de Tourette que assiste a entrevista do autor da instalação. Na balada, no entanto, Anne começa a conquistar Christian imitando a doença do espectador inconveniente. Brincando e seduzindo, é tudo mentira, ela denuncia.
Uma outra relação interessante prende-se ao fato de Anne morar com um gorila que faz arte. Ele desenha, pacificamente, a pretensa arte moderna dos macacos. A performance do homem-gorila no jantar também pretende ser artística, com um resultado de explosão de fúria nos elegantes senhores suecos.
A repórter americana aparece em outra cena significativa. Depois de fazer sexo com Christian, ela pede que ele lhe dê o preservativo, para jogar fora. O sueco fica muito desconfiado, há insinuação de que ela poderia usá-lo para engravidar, embora nada fique claro, pois nem ele nem ela deixam claros suas intenções e temores. Ao final ela descarta a camisinha, deixando o parceiro meio desnorteado.
Em uma cena já mencionada, quando a moça tenta saber o quanto Christian valorizou o encontro que tiveram (ao mesmo tempo em que ele recebe a notícia da instalação danificada), ela também quer extrair dele uma declaração explícita, uma palavra, um significado, mas não consegue. O sujeito é mestre em se safar das situações.
É interessante notar o papel de Anne nos quatro pontos mencionados. De algum modo ela procura sempre ser mais verdadeira que o charmoso diretor do museu. É possível que haja um jogo com a cultura americana, esses novos ricos sem tradição, porém mais claros e autênticos?
No terço final do filme Anne some de cena e aparecem as filhas. Ao contrário dos adultos, que fazem de tudo para parecer alegres e interessantes, são meninas tristes, que não sorriem. Todas as crianças são assim, o bebê chorão do funcionário do museu, o menino imigrante, as filhas de Christian. Uma sociedade para velhos?

As vertentes.
O filme apresenta muitas vertentes, são várias histórias em uma, conduzidas pelas agruras de Christian. Ele tem a tarefa de angariar fundos para o museu, está envolvido em esclarecer um roubo de seus pertences, tem de cuidar da parte artística da instituição e dar satisfações à imprensa e ao público, complica-se com um vídeo com que foi descuidado e precisa dar conta de uma aventura sexual, tudo isso além de cuidar das filhas, que nunca aparecem satisfeitas em sua companhia. Num plano social e existencial, digamos, Christian, o diretor uma instituição artística de um dos países mais evoluídos do planeta, é confrontado o tempo todo com a miséria dos mendigos e com a própria tolerância. É fácil descartar os pedintes das ruas, mas é difícil manter a fleuma com as filhas, com o menino imigrante que o atazana e com a mendiga que tem a ousadia de pedir um sanduíche de frango sem cebola.

O vídeo e a trilha sonora.
Escolho falar sobre a questão do vídeo, por ser muito interessante. Para se desvencilhar de uma encrenca particular, as ameaças do menino imigrante, Christian se ausenta e tira dois de seus auxiliares da discussão sobre o conteúdo do vídeo. O resultado é desastroso. A imagem da menina explodindo causa uma comoção inesperada. Curiosamente, na única vez em que o vídeo é exibido ao espectador do filme, a trilha sonora muda completamente. Ali e só ali é executada Ária da Quarta Corda, de Bach, a suavidade contrastando com a criança despedaçada. Em todas as outras intervenções musicais escutamos Bobby Mcferrin e Yo Yo Ma, notadamente a Ave Maria. A Ária da Quarta Corda é uma adaptação para violino e piano do segundo movimento da Suíte n.º 3 para orquestra, Johann Sebastian Bach (1685-1750). Os títulos “Ária na corda Sol” e “Ária da Quarta Corda” não são originais. Vieram de uma adaptação para violino e piano do 2º Movimento da Suíte n.º 3 para orquestra, em Ré Maior, de Bach, feita por August Wilhelmj (1845 – 1908). Transpondo a tonalidade da peça de Ré Maior para Dó Maior, Wilhelmj foi capaz de tocar a peça em apenas uma corda de seu violino, a 4ª corda, que é normalmente afinada em Sol. Será mais uma alusão às possíveis deformações da Arte? Estou viajando demais? Mesmo a Ave Maria é deslocada de sua feição original, está alterada, executada por um músico popular e um clássico. As duas peças são os tais “clássico populares”, considerados heresia pelos eruditos e brega por não-eruditos de bom gosto. Mais um fake.
Voltando ao conteúdo do vídeo, Christian é convocado a explicar uma coisa de que não participou, por resolver um problema particular em detrimento de sua obrigação institucional. Não é Bom, não é Belo, não soa Verdadeiro. Colocada desta maneira, a questão toma ares moralistas. Será essa a intenção do diretor? É possível.

As soluções de Christian.
As cartas que Christian envia para os moradores do prédios de subúrbio, o vídeo erudito com que tenta se desculpar com o garoto imigrante (que fala mal o sueco) e sua família, a esmola generosa que dá à mendiga ao encontrar sua carteira e seu celular (como a justificar sua indiferença frente à miséria), o conserto da avaria nos montes de cascalho, o pedir ao mendigo que fique com as sacolas das filhas que estão no shopping, todas as soluções do curador soam patéticas.
Essa perambulação por consertar o inconcertável lembra-me um trecho do livro de Jair Ferreira dos Santos, “O que é pós-moderno”, Editora Brasiliense, 9ª edição, 1991, págs. 37 e 38:
Desetetizando-se, desdefinindo-se, tornando difícil saber-se o que é arte e o que é realidade, ela (a antiarte) tende ao niilismo, a zerar a própria arte. Pois na condição de pós-moderna, se o NÃO modernista é inútil, dado o gigantismo dos sistemas, então vamos desbundar alegre e niilisticamente no ZERO PATAFÍSICO. (Oposta às soluções sérias, a patafísica – segundo o seu criador, o dadaísta Jarry – é a ciência das soluções imaginárias e ridículas.)

A busca da redenção.
Enfim Christian, já demitido de seu posto e agora sem poder, resolve fazer a única coisa sensata para se redimir: falar com os pais do garoto ofendido, para desculpar-se. Ele leva as filhas. Mas o esforço se perde. Não se sabe o porquê, mas a família mudou-se e ninguém sabe seu paradeiro. Na última cena, depois de obter essa informação de um morador do prédio, as meninas já se dirigem para a saída. Christian, o adulto, ainda fica olhando para seu informante, perplexo, como se não acreditasse. Sua última tentativa, a esperança de enfim chegar perto de algo Bom, Belo e Verdadeiro, foi frustrada.

A vitória da Patafísica é inevitável.

O personagem e sua sociedade.
Christian, um espécime exemplar da sociedade culta e educada, é um trapalhão, um Peter Sellers pretensamente evoluído e menos engraçado, um malandro sofisticado. O diretor usa o curador do museu para tratar das inúmeras e imensas contradições do que há de mais elevado na civilização ocidental. Minha tentativa foi de sair da análise sociológica, focando nos personagens, para depois (agora) retornar a ela.

Vejo que trilhei o mesmo e batido caminho – fui elaborando um texto buscando a coerência, uma estrutura que esperava ser Boa, Bela e Verdadeira, além de original. As fronteiras do quadrado são terríveis. Gostaria de ter sido mais patafísico, mas está fora do meu alcance.