Spinal Tap

Spinal Tap – o filme.
Uma apreciação autorreferente.

Luiz A G Cancello

Vejo um filme sobre a saga de uma banda de rock’roll.
Confesso, preciso um certo esforço. Explico.
Nunca toquei rock. Vivi a adolescência numa turma que se confundia com a bossa nova e o jazz. Éramos xiitas ao extremo. Todo o resto da sonoridade do mundo não era boa música. Havia um patrulhamento ideológico bravo. Se algum de nós fosse pego escutando esses frutos do colonialismo cultural e massificante estava ferrado. Ainda por cima, desde cedo liguei-me à esquerda da época.
Mais tarde, aí pelos 17 ou 18 anos, aproximei-me de um pessoal alternativo. Viajei de carona pelo Brasil, consumindo uns cigarrinhos jeitosos, dormindo em lugares incríveis – dentro de kombi abandonada, embaixo de marquise de posto de gasolina, em repúblicas de estudantes.
Nesse clima era inevitável ouvir Led Zeppelin, Jimi Hendrix, King Krimson, Janis Joplin, Rolling Stones. Mas eu gostava mesmo do Blood, Sweat and Tears, que era mais elaborado.
Fui ouvir e apreciar os Beatles quando meus filhos cresceram e se tornaram fãs dos músicos ingleses. E fica por aí a minha história com essa música, símbolo da segunda metade do século passado. Usei meu tempo sonoro escutando e tocando as brasilidades disponíveis.
Há muitos anos, muitos mesmo, não escuto uma banda de rock. Nem me ocorre.

Baita introdução para introduzir o meu viés interpretativo! O pior é achar que essa história interessa a alguém. Perdoem-me.
Agora imaginem que, sábado, fui transportado para um universo de que tinha uma vaga ideia, por notícias lidas aqui e ali. Vi o entusiasmo dos meus colegas do glorioso Cinemanu, posso entendê-los, mas à distância. Se eu for totalmente irracional e sincero, digo os meninos Spinal Tap me pareceram uns tontos e desorientados, fazendo gracinhas anglo-americanas meio bobocas. Ri de uma ou duas, é verdade. Fiquei preocupado. Talvez com o tempo eu possa ser convertido às doutrinas mais absurdas.
Mas tentei não sucumbir aos ecos da juventude. Consegui perceber boas ideias nas letras, alguma musicalidade nos solos de guitarra, embora às vezes me parecesse uma dinossaura no cio sendo currada por dois tiranossauros, numa imagem que o Jaguar usou há séculos no Pasquim.
Poderia fazer um tratado psicossociológico sobre as atitudes dos músicos no palco. Os raciocínios em Ciências Humanas são flexíveis, um conceito como “fálico” aplica-se às calças justas (de péssimo gosto, convenhamos), ao braço da guitarra, à língua exposta nas bocas escancaradas. Uma interpretação fálica, últimos estertores da afirmação masculina num mundo progressivamente dominado pelo feminismo, adorável e chatíssima tendência do fin de siècle passado, adentrando com razão e sem humor esta vigésima primeira centúria da Era Comum.
Outra possibilidade, e as há em número indeterminado, é apreciar o filme pelo ângulo da cultura de massas, levando de roldão os jovens talentosos, digamos, e despreparados, os bateristas morrendo pelo caminho (será por que eles marcam o tempo?), o fracasso à espreita nos labirintos entre os camarins e o palco.
Ah, temos também uma compreensão histórica. O enredo, segundo alguns, foi baseado na presença do Yoko Ono na trajetória dos Beatles. É uma ideia, sem dúvida, mas não precisamos da excêntrica japonesa para construir um roteiro masculino que a mulher, a amizade e os negócios entram em conflito. A estrutura é arquetípica.
De todas essas veredas, ainda prefiro a mais simples: trata-se de uma tentativa, diria que bem sucedida, de descrever a história típica de uma banda de rock. O formato usado, de entrevistas, rege o ir e vir entre presente e passado, dando um panorama claro, cruel e até divertido do caminho dos meninos, meninos mesmo quarentões, como o filme sugere.

Será que foi isso que eu perdi, essa coisa roqueira de ser sempre jovem, contestador, rebelde, hoje ídolo e amanhã incógnito, tentando a cada queda um renascimento?
Fiquei pensando se percorri essas etapas de outra maneira. Mas agora não vem ao caso.