Prolegômenos para uma Fenomenologia da Penumbra

              Luiz A G Cancello

               I

               A angústia desce sobre os homens.
               O crepúsculo cai sobre os lugares.

               O crepúsculo: o tempo onde todos os gatos vão adquirindo sua cor pardacenta — é a hora das silhuetas: a sombra, pouco a pouco, se confunde com seu próprio emissor.
               (Alguém se movimenta sempre na penumbra; movimenta-se como se estivesse sempre na penumbra: sorrateiro como o gato, figura e sombra indistinguíveis).
               O crepúsculo tem a noite como projeto; movimenta-se no âmbito do mistério; refere-se a alma e suas paixões, temores, expectativas, esses fluxos.

               A alvorada tem o dia como futuro. Mas, em geral, nas estórias, quase não se morre nos crepúsculos. De algum modo, há um romantismo mórbido (um fascínio mórbido) em se conceber a agonia acompanhando a noite, a morte sobrevindo ao amanhecer. O dia se instala, soberano, a luz escancara a verdade fundamental: a vida continua.
               (A alvorada refere-se ao eterno, à sua luminosa permanência).

II

               O buraco negro é a formação mais misteriosa do universo. Não é possível conhecê-lo por dentro. É provavelmente um corpo celeste dotado de uma força gravitacional enorme. A luz, ao passar por suas cercanias, é totalmente absorvida. Fica um ponto escuro no espaço, um lugar onde deve haver alguma coisa, mas nossos instrumentos ópticos não podem penetrar nesse âmago de escuridão.
               Há nas pessoas esses pontos obscuros.
               Somos buracos negros, e só por isso podemos concebê-los. Uma força rouba a possibilidade de esgotarmos nossa própria interpretação.
               Algo sempre falta, e é inatingível.
               (A velocidade da luz é o nosso limite).

III

               A memória é um curioso túmulo, onde os quase agonizantes vivem. Nessa região atemporal permanece um eterno crepúsculo. As figuras dificilmente se distinguem de suas sombras.
               E por ser assim, por esse curioso dom crepuscular, as sociedades humanas se concebem sempre em decadência.
               Atentemos para isso. Os mais diversos grupos humanos apresentam uma semelhança notável em sua concepção sobre o tempo. Acreditam ter havido um tempo do início, mítico ou histórico. Sucedem-se as eras. Em algum lugar da trajetória, deu-se a idade do ouro. Este ponto de agora (onde essa história é contada) está situado em plena curva descendente. Não é ainda a idade das trevas, mas a anuncia. Trata-se de uma pré-agonia.
               Estamos com os relógios parados, sempre às 6 horas da tarde.
               Temos uma ideia fixa: os males de agora, as aflições que cotidianamente nos oprimem, têm raízes no começo dos tempos. São históricas. Para extirpá-las, precisamos começar tudo de novo. Precisamos resgatar uma suposta pureza das origens. Já fomos puros?
               Mas, para atingir a mesma e outra manhã, é preciso passar pela escuridão da noite.
               No meio do suposto ciclo, os gatos assustam, com sua cor pardacenta. Mas esquecemos: a pureza só pode ser concebida por quem não é (mais) puro. (O puro não se autoconcebe)
               Não há volta possível. O relógio anda sempre. Consultando-o somente às seis horas da tarde, esquivamo-nos do tempo.

IV

               O alquimista manipula estranhas substâncias em seus frascos e cadinhos. Mistura, decanta, destila, funde. O fogo, reinando sobre a natureza, emissor de luz, tudo transforma.
               Ao fim da obra, cansado e iluminado, ele sabe. E dentre todos os meandros de sua sabedoria, destaca-se um: o nigredo.
               O nigredo é um resíduo, uma gosma, um pó, uma pequena sujeira escura nas paredes do forno, difícil de raspar. É o resto da reação, um irredutível. Não reage com outras substâncias, resiste a todas as tentativas de eliminá-lo. Um buraco negro. A memória da transformação.
               O alquimista sabe, e convive com isso.
               Ao nível humano comum, o nigredo denuncia. Refere o observador às suas origens, a uma vaga nostalgia onde o resíduo não existia. Mas não houve esse tempo.
               Não é essa a referência do nigredo.
               O nigredo é irreferível, antes ou depois de constituído. Sempre esteve ali; apenas manifestou-se.
               Um crepúsculo atemporal.
               Seis horas da tarde.

V

               Aquilo que se finda no crepúsculo
               (que no crepúsculo tem seu fim)
               Sonha com um renascer
               Mas na alvorada a morte é definitiva.

               Alvorada e crepúsculo são limites, nem noite nem dia.
               Os seres dos limites são perigosos; desafiam a ordem estabelecida. São os portadores do mistério. Assim, para os primitivos, comer um morcego é tabu; é um animal dúbio, fronteira entre pássaro e mamífero. Os modernos o escolheram para personificar o vampiro, personagem entre a vida e a morte.
               E há mesmo os povos onde a mulher que dá à luz gêmeos é morta, assim como seus filhos. Pois ela se situa numa região indefinida, entre os homens – geradores de um filho por vez – e os animais, de geração múltipla.
               É preciso exorcizar esses seres cheios de duplicidade. Assim os exorcistas conjuram seu próprio viver crepuscular. Mas vivem esbarrando em seu nigredo, sofrendo por isso de fétidas úlceras.
               Modernamente, chamam isso de psicossomática.

VI

Os homens mediram o tempo, inicialmente, pela passagem da lua no céu. Baseavam-se nas faces dos astros. É a primeira notícia que se tem de algum tipo de mensuração.
               A antiga raiz etimológica me, indo-ariana, designa lua. Esse radical se manteve em diversas línguas ocidentais. Em português, gerou as palavras mês, medir, mensurar, menstruar. Pela lua e seus ciclos foi concebido o desenrolar do tempo. E já o foi de um determinado jeito, esse dos ciclos, do desaparecimento e do ressurgir, de morrer e renascer.
               Mas desde o início uma nostalgia acompanha o homem que mede, e que é ele mesmo medida (diz-se) de todas as coisas.
               A nostalgia é um sentimento curioso. Não é apenas uma simples saudade do passado; ao contrário, até certo ponto é uma sensação de eterna permanência; uma impressão de nada ter mudado, apesar dos esforços ao longo do tempo. Na nostalgia, balança-se vagarosamente a cabeça, a boca está levemente triste, o olhar distante, como numa constatação. A força gravitacional do buraco negro atrai, e passivamente nos deixamos passar mais perto do centro. As sombras da memória vagueiam ao redor, quase queimando a pele. Na última hora, o medo nos arranca do ponto final.
               Os cristãos já falaram na tentação da desesperança. Talvez isso tangencie nosso assunto, mas saímos de banda e retomamos o caminho.
               Precisamos da nostalgia. Através dela, acreditamos: ainda somos os mesmos. Ah, o fascínio que exerce!
               Ao quarto-minguante, a nossa permanência.

VII

               Os homens mediram o espaço, inicialmente, com seu próprio corpo: polegadas, palmos, braços. As distâncias maiores foram concebidas pelo corpo andando: pés, passos, quantas luas se demorava para ir de um lugar ao outro.
               (O comprimento linear, depois formalizado pelo metro, permaneceu a medida por excelência. Até o tempo, enfim, foi a ele reduzido — afinal, lemos as horas pela distância percorrida pelos ponteiros do relógio, como lemos a temperatura pelo tamanho da coluna de mercúrio, a velocidade do carro pela extensão indicada no velocímetro).
               Depois vieram os mostradores digitais e seu desencanto, mas esse é outro assunto, que também contornamos.

               A distância se media a partir do centro do mundo, um poste fincado no meio da aldeia primitiva, o marco inicial. Ponto de origem da rosa dos ventos, ponto de ruptura nos espaços verticais; junto desse poste o pajé, em seu êxtase, podia subir aos céus ou descer aos infernos.
               Na penumbra, temos a impressão de distinguir a sombra do Eixo do Mundo. Estendemos a mão para tocá-lo, mas tememos sua tremenda gravitação. Não sabemos se ela nos atirará para as raízes do mastro ou para seu topo.
               Retiramos a mão. Notamos nos dedos uma gosma, um pó, uma pequena sujeira escura sob as unhas.
               Dá vontade de lavar.
               Às vezes a nostalgia prescinde de toda a recordação; contentamo-nos com a atmosfera pastosa de uma saudade estranha, sem objeto nítido.
               Sombras.
               Ao medo e ao nojo dedicamos uma dimensão esquecida.

VIII

               Enquanto dura a vida, uma luz inquieta — spot em direção ao palco, ou lanterna na testa do mineiro? — vai sendo disparada em direção à penumbra. Amarrada por um fio na abóbada do cérebro, a lâmpada balança para frente e para trás, a cada mínimo tropeço do caminhante.

               O futuro — esse hiato que nos ficou, e fica — necessita da luz para ser… esclarecido.
               Aquele projeto imediato, a conquista quase fugindo mas ainda possível, os planos claros, claros? Esses são sujeitos ao espectro variado do arco-íris. Mas aquilo que o tempo trará de encontro a cada vida pertence a um matiz acidentado, onde os contornos mal se distinguem do fundo. Prenúncio do nigredo —
               O caminhante continua sempre. Seu rumo é tão sombrio quanto sua memória. Só um mito o impele a continuar: ele acredita que o caminho à frente se impregna do lusco-fusco da aurora, e que o passado se obscurece no crepúsculo.
               Escolha um norte, põe-se em marcha.
               Há o esboço de uma ideia de totalidade no suposto horizonte.
               Crê-se livre.

Publicado, com pequenas alterações, na Revista “Artéria”, número 0, edição da Secretaria da Cultura de Santos, janeiro de 1990.