Apreciação de Luiz A G Cancello
O inusitado aparecimento de uma mulher jovem numa aldeia portuguesa causa um alvoroço na população. O fenômeno, no entanto, era esperado por algumas pessoas especiais. Ela chega sem memória, precisa de um nome e de um passado, tudo vai se construir de uma forma bem engenhosa. Ali Jorge vai se apaixonar por Cida, a forasteira.
Na segunda parte do livro muitos mistérios serão revelados, inclusive um antigo companheiro que morava no Brasil, lugar que a mulher sempre soube ser o seu. O tempo não passou da mesma forma para todos os envolvidos, estranheza essencial para compor a história.
A autora usa os sonhos dos personagens, principalmente de Cida, como o principal fio condutor do romance. A meu ver, nem sempre os relatos oníricos parecem verossímeis, ao contrário; há um certo viés para que tudo faça sentido. Vale como recurso narrativo, mas não convence a este psicólogo, que escuta sonhos há 50 anos.
Na segunda parte do livro, passada no Brasil, Cida (que mudará de nome) descobre suas raízes nos ritos dos índios Tremembés, dando um colorido muito rico à narrativa.
Tenho algumas observações sobre o desenvolvimento da escrita.
A imaginação da autora sai aos borbotões. Ela não disciplina o fluxo das imagens e das ideias, apesar de expô-las com bom domínio da linguagem. Não se detém para descrever com calma lugares ou pessoas, lacuna que já aparecia em seu livro anterior (isto é uma opinião bem pessoal). É verdade que, na cadeia um tanto frenética de acontecimentos, vamos fazendo a imagem dos personagens. Mas isso depende muito do mecanismo mental do leitor e pouco das pistas dadas pela escritora. Vejamos sua economia descritiva:
A igreja é muito pequena, todos se conhecem, não demorou para que alguém olhasse para nós dois. A beleza de Jorge Momade, um homem que ocupa o seu espaço com tudo o que tem de melhor, o sorriso e o cheiro, a cor das roupas e a voz. Impossível que ele chegue e ninguém olhe, viram a mim ao seu lado e aos poucos meu rosto apareceu como uma miragem.
E isso é o máximo que sabemos sobre o aspecto físico de Jorge. É pouco.
Há cadeias de eventos muito lineares. Apesar de ser um livro conhecido por sua vinculação ao Realismo Fantástico, e sem dúvida pertence a essa escola, em muitos casos as coisas são encadeadas linearmente, como na aparição de Joana em Portugal. A descrição da viagem perfeitamente dispensável (e mais não digo por acusa do spoiler), pois um dos pontos fortes do Realismo Fantástico é deixar alguns mistérios pairando na história. Não há necessidade de explicar todas as etapas de um processo.
É verdade que o acontecimento que dá origem ao livro não é explicado, convida-se o leitor a aceitá-lo e prossegui a leitura imerso do clima assombroso e inexplicável. Aqui estamos na melhor tradição de Garcia Marques, com quem a autora participou de Oficinas Criativas, em Cuba.
Apesar das objeções acima, de caráter bem pessoal, o livro é interessante e o texto prende o leitor. A ausência de descrições me desagrada, pois aprecio os retratos de construção de pessoas, paisagens e coisas que um texto é capaz de compor. Claro que a imaginação de quem lê sempre preencherá as inevitáveis lacunas, sendo essa co-criação um dos muitos prazeres da leitura.