Ocupação, de Julián Fuks

Comentários agradecidos de Luiz A G Cancello

O livro trata de raízes, desgarramentos, origens, destinos. O protagonista, Sebastián, está às voltas com a possibilidade de ter um filho, ao mesmo tempo em que cuida do pai doente. Esta dupla condição evoca uma série de consideração sobre suas raízes e sua continuidade. Enquanto cuida de seu conflito interno, propõe-se a escrever um livro sobre a ocupação do Edifício Cambridge, um velho prédio no centro de São Paulo, ali onde estão os desgarrados, imigrantes e emigrantes, drogados e moradores de rua, procurando fincar âncora em algum ponto, numa comunidade, num país. O esforço para entender tantos aspectos da vida o faz refletir e chegar a um todo que ultrapassa as individualidades.

Aqueles destroços talvez não contassem toda a história do espaço ao longo das décadas, do que foi uma repartição pública com seus gabinetes e salas de espera, e uma vez foi abandonado, do que foi a primeira ocupação por moradores organizados, e outra vez foi abandonado, do que foi então a entrada de seres ainda mais destituídos, mais esquálidos, espoliados de tudo, à caça de qualquer valor que os salvasse, que lhes garantisse mais um dia de existência. Mas contavam, sim, aqueles destroços em sua gramática contundente, eu pensava entre impressionado e melancólico, a sucessão infindável de erros que conduziram ao despautério, a história do nosso fracasso civilizatório.

Pertencente a uma família estruturada, Sebastián quer entender o outro, aquele Outro com letra maiúscula, a partir de sua situação, digamos, confortável. O Outro: o pai, o filho, os moradores da ocupação, o escritor que ele é, um homem casado e de classe média. O autor procura fixá-los no texto antes que escapem, pugna por obter a descrição exata antes que a ruína os engula. Algo continuamente se oculta, a descrição é sempre incompleta, o autor volta aos temas para tentar achar algo a mais. Quer sair de sua realidade para poder abarcar o que não compreende, escreve por um e outro ângulo, procurando as brechas, antes que tudo escape de sua percepção e se arruine.
A frase: ”Todo homem é a ruína de um homem, eu poderia ter pensado.” abre o livro. A partir daí a palavra “ruína” aparece diversas vezes no texto. O autor (ou seu personagem?) acerca-se do conceito, mas o mergulho na ruína é contido por sua situação, sugerindo os limites da alteridade possível:

Estou escrevendo um livro sobre a dor do mundo, a miséria, o exílio, o desespero, a raiva, a tragédia, o absurdo, um livro sobre esta interminável ruína que nos cerca, tantas vezes despercebida, mas escrevo protegido por paredes firmes.

Ao tentar apreender o Outro, é inevitável que se pergunte também por si mesmo. A eterna questão “Quem é o Homem?” se apresenta a cada página, ora camuflada, ora explícita. Talvez seja assim em toda grande obra? É disso que se trata, aqui. Vejo neste livro uma rara densidade filosófica. Faz pensar, e só por isso já valeria a pena. Mas além dessa qualidade é bem estruturado e muito bem escrito.
Interessante: há musicalidade nas palavras, um ritmo. Noto adjetivos inseridos para manter a métrica. Percebi isso de repente, quase no final do livro, quando me perguntei o que me mantinha hipnotizado no texto.