Luiz A G Cancello
Costumo fazer as refeições na cozinha. Sento-me sempre no mesmo lugar da mesa. Levantando os olhos, vejo sem dificuldade o relógio de parede. No almoço, aquela hora em que se come entre as obrigações da manhã e da tarde, meu olhar é atraído pelos ponteiros muito mais vezes do que eu gostaria. É quase uma compulsão.
Faz uns dias que o relógio parou de funcionar. Troquei a pilha, nada adiantou. Já estava bem usado, encerrou seu ciclo. O jeito era comprar outro.
No sábado de manhã convoquei minha companheira, que é arquiteta, para sair e adquirir o novo relógio. Sem sua opinião nada pode ser pendurado nas paredes da casa. Meu senso estético não basta, preciso do aval da especialista.
Não havia muitas opções nas lojas. Como a cozinha é bege, se é que ainda entendo os nomes das cores, apontei para um relógio que me parecia combinar com o ambiente. Ela aprovou, fique surpreso, é difícil acertar assim, de primeira. Gostei do design discreto, os ponteiros imitando madeira, o tom também amadeirado. Compramos.
Chegando em casa coloquei-o na parede. Fizemos a compra de manhã. No almoço notei que a visão do relógio me trazia algum conforto. Deve ser por saber as horas, estava aflito por estar fora do tempo, pensei. Mas havia algo mais, um quê de especial, de paz.
Demorei algum tempo para entender. De repente percebi que o relógio não tinha o ponteiro dos segundos. Ao contrário de seu predecessor, mostrava apenas as horas e os minutos. Aquela volta frenética, acusando o passar apressado do tempo, não existia. Fiquei contemplando o mostrador, tentando acompanhar o movimento lento do ponteiro maior, como fazia quando criança, no velho relógio da casa dos meus pais. Deixei-me levar pela lembrança e pelo vagar.
Minha companheira havia levantado a hipótese de trocar o relógio, poia achou que não combinava com um adorno que tinha na mesma parede. Supliquei: toque o adorno. Por favor, não me tire essa paz, o aconchego de me perder no movimento imperceptível e nostálgico do ponteiro grande, o tempo que ganhei depois da mudança.
Ele me olhou meio de lado, desconfiada talvez de minha saúde mental. Não disse nem sim nem não.
Saí à tarde para trabalhar. Quando voltei para casa o adorno tinha sido trocado. Em vez de um prato de parede, havia um pequeno vaso de vidro, com uma planta seca, cuja cor se harmonizava perfeitamente com o relógio. Nunca subestime uma arquiteta.
Jantei como se a cozinha fosse nova, como se a ordem tivesse derrotado o caos e todas as coisas do mundo estivessem em seus devidos lugares. Poderia ficar ali, ao lado dela e sob relógio, até o final dos tempos.