O Peso do Pássaro Morto, de Aline Bei.

Título: O Peso do Pássaro Morto
Autor: Aline Bei
Editora: Nós, 2017

O que é uma vida comum, de uma pessoa comum, classe média baixa, que se espera que estude até certo ponto, tenha uma profissão, talvez um casamento e filhos? Mas o que é essa vida descrita pro uma pessoa de alta sensibilidade?
O nome do livro faz referência a um episódio em que a menina tem de segurar um pássaro na mão. A partir daí o título pode ser lido por diversas vias, dadas pelo significado que a sensibilidade da criança atribui a um fato aparentemente corriqueiro. À luz da escrita da autora, aliás, pode-se dizer que nenhum fato é corriqueiro.
A personagem de Aline Bei, apesar de ter nascido numa estrutura estereotipada, tem uma imaginação rica e uma auto-observação intensa. A vida ia seguindo seu rumo, até que uma gravidez indesejada e brutal tira as coisas do eixo.

“o moleque não era nem nascido e
já tinha gente pensando
na sua
profissão. o trabalho é
por tantas vezes a maior tristeza da vida de uma
pessoa e é só nisso
que certos pais pensam, no filho
crescendo e sendo alguém sendo
que esse ser alguém envolve tudo
menos Ser.”

A narrativa, como se vê nas citações, é sempre de uma mulher adulta remetendo-se à infância, a algo que foi perdido. Do meio do livro em diante ela encontra outra forma de amor, mas aqui evito o spoiler.
Os capítulos nomeiam-se segundo os solilóquios da personagem em diversas idades: Aos 8, aos 17, Aos 18, e assim aleatoriamente até Aos 52.
O texto é também prenhe de considerações sobre a uma maternidade sempre pensada e nunca encontrada, como um enigma a ser resolvido desde a infância, passando pela gravidez e se prolongando pela idade adulta. Há sempre um estranhamento com o mundo, com as coisas e os outros, com o próprio lugar onde se habita.

“uma casa empilhada no meio de
  tantas outras naquela rua feia
  que por várias noites a lua esquecia de
  passar.
aqui nada é meu,
igual a todos os outros lugares.
a rua era minha só na criança que
  fui,
de resto que mundo
estrangeiro.”

As melhores recordações prendem-se ao pai, com quem teve contatos breves, mas intensos. Com ele ia ao mercado e ali exercia todo seu poder de imaginação. A verdade transita entre o mundo interior e o exterior, tornando-se fluida.

“eu gostava tanto do ceagesp
  quando menina
que eu até tirava foto
no jardim de lá e mostrava na
  escola para os meus amigos
  dizendo que aquele era o jardim
  da minha casa.  
eles me achavam rica.

– caramba, um jardim desses.
– sim,
uso helicóptero e esse
é o jardim da minha casa que cabe
1 feira.
não era de todo mentira
já que eu me sentia em casa ali e
  sentir também é jeito de dizer a
  verdade,
a parte do helicóptero eu assisti
num filme.”

A autora escreve como se fosse em versos, uma prosa versejada, de efeito muito expressivo. O salto de linhas, no texto, se faz conforme uma estrutura de poesia. Escrito em primeira pessoa, num fluxo de consciência muito sensível e sutil, parece que e leitor está escutando alguém em livre associação. Vale para profissionais psi, mas é fundamentalmente literatura, vale para todos os que gostam de refletir sobre a existência humana.