Luiz A G Cancello
— Não consigo fazer o Júnior parar de jogar. Ele não me obedece.
— Também… olha lá na sala. O avô está jogando com ele. Vidrado na tela.
— Eu já pedi pro meu pai maneirar, mas não tem jeito.
— É mais infantil que o neto.
— O que eles estão jogando?
— Futebol. Acho que se chama FIFA. É muito viciante.
— Se ao menos o Júnior fosse para o quintal jogar bola de verdade…
— Não faz parte da geração deles.
— Meu pai jogou muita bola quando era moleque. Agora parece que esqueceu.
— Foi o seu pai que convidou o menino pra jogar? A iniciativa foi do velho?
— Não fale assim do meu pai. Eu sei que ele acostuma mal o neto, mas isso não te dá o direito de ofender ninguém.
— Queria que eu chamasse ele de jovem?
— Acho que a discussão não é essa. Aliás, eu nem estava discutindo, só queria que o nosso filho desgrudasse daquela máquina de fazer louco.
— Você concordou em dar o videogame pra ele, no aniversário.
— Mas foi você que teve a ideia.
— Pronto. Agora a culpa é minha. É bom lembrar que o pai é seu.
— O que será essa gritaria lá na sala?
— Alguém marcou um gol.
— Foi meu pai ou foi o Júnior?
— O que isso importa, nessa altura?
— Eu não quero que meu filho perca a partida para um idoso. Não é justo.
— Idoso não é a mesma coisa que velho?
— As palavras são muito diferentes.
— Tá certo. Vou ver como o i-d-o-s-o está tratando seu filhinho.
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— Quem está ganhando?
— Seu pai. 4 x 0.
— Que filho da puta.
— Cadê o respeito?
— Eu admito tudo, menos que maltratem meu filho.
— Então vai lá e tira aquela merda da tomada.
— Acho que é muita violência.
— Vou desligar a chave geral.
— Mas as coisas do freezer vão estragar.
— Não sei o que fazer.
— Nem eu.
— Talvez não haja nada a fazer.
— Estou me sentindo muito mal com tudo isso.
— Eu também.
— Eles são os único felizes nesta casa.
— Esse é o jogo.