Luiz A G Cancello
Não me lembro como cheguei ao escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr. Muitos caminhos nos levam a escolher a próxima leitura: indicação de amigos, o passar de olhos numa entrevista com o autor, resenhas de jornais, escolha aleatória nas estantes de uma livraria e tantos outros jeitos de prosseguir a jornada literária.
Mohamed se revelou para mim com o livro “A mais recôndita memória dos homens”. Fiquei muito impressionado. Ali estava um autor diferente, entremeando o enredo com trechos filosóficos, tratando ao mesmo tempo de diversos assuntos, sem nunca perder o fio da narrativa. Um livro sobre o ato de escrever. Sobre escritores, mas o texto não interessa apenas a esses seres estranhos, vai muito além. Fala sobre sentir-se estrangeiro, visto que é um senegalês que escreve na França, mas é também um senegalês na França o personagem principal. É um livro sobre outro livro: há um escritor, T.C. Elimane, que ninguém sabe por onde anda, mas escreveu uma obra seminal chamada “O labirinto do inumano”, a que não se pode ficar indiferente, e dessa obra há poucos exemplares. Fala sobre as buscas desse livro e de seu autor, da busca incessante de algo que nos escapa. Abrange a negritude, a imigração dos africanos para a França, o ofício da escrita e o mundo grandioso e mesquinho da edição de livros, além de tecer reflexões sobre Literatura e sobre o existir humano.
Entusiasmado com esse primeiro contato, li em seguida “Homens de verdade”. A ação se passa no Senegal e trata dos preconceitos sobre o homossexualismo que grassam naquele país, por conta da religião. Ndéné e Rama, sua namorada, estão num quarto. Ela pergunta se ele já viu o vídeo que circula nas redes sociais: um homem é desenterrado de um cemitério islâmico, supostamente por ser homossexual. Não poderia pertencer àquele campo santo. Impressionado com o que viu, o protagonista passa a querer saber mais sobre a vítima de ato tão insano. O tratamento do tema é delicado e brilhante, sem jamais cair em estereótipos. A partir daí é feita uma análise profunda sobre a sociedade senegalesa e, mais uma vez, sobre nossa maneira de estar no mundo.
Claro que parti para outro livro do Mohamed, “Terra silenciosa”, sua primeira publicação. Ainda que sem o brilhantismo das outras obras, já se nota aqui a gênese do grande romancista. A narrativa também se passa no Senegal muçulmano, numa aldeia fictícia, dominada por uma milícia radical. Um casal de amantes é condenado por ter relações sexuais antes do casamento. Um grupo de dissidentes do regime resolve editar um jornal clandestino para enfrentar as autoridades e suas decisões fanáticas. O texto tem uma parte epistolar, descrevendo a troca de cartas entre as mães dos jovens condenados. É intenso e emocionante.
Mohamed Mbougar Sarr, nascido em 1990, é filho da elite senegalesa e foi educado em boas escolas, no Senegal e na França. Sua formação permitiu que desenvolvesse um olhar crítico para seu país, para a África e para o Ocidente europeu, tema que está presente em cada um dos seus escritos. Em cada história o leitor é remetido a pensar além do enredo manifesto, no limite pensar a existência e sua complexidade, como em todo grande livro. Mohamed venceu o Prêmio Gouncourt, o mais prestigiado da Literatura francesa, em 2021. Esse jovem, na casa dos 30 anos, consegue gerar uma obra de grande valor literário. Esperemos seus próximos passos, muita leitura boa deve estar no horizonte. Um sério candidato ao Nobel. A ver.
Artigo publicado no jornal A Tribuna, de Santos, em 28 de abril de 2024