Em um colégio bilingue para meninas ricas do Equador, um grupo de alunas se destaca por sua união. Essas adolescentes, de idades em torno dos 15 a 16 anos, vão fortalecendo sua amizade com alguns rituais, de início simples e quase ingênuos. Aos poucos a situação criada evolui para práticas perigosas e com pequenas lesões corporais. Uma das moças tem a imaginação bastante aguçada, levando as outras a mundos imaginários e místicos, onde toda essa estranheza faz sentido.
No colégio há uma professora, Miss Clara, psicologicamente frágil, com crises de ansiedade e pânico, além de outras perturbações, como uma identificação mórbida com a mãe, também professora.
Nas noites mais difíceis da semana, ela abria e fechava as portas dos quartos, perambulava descalça pelos corredores, conferia as janelas, fechaduras e gavetas uma vez atrás da outra; entrava e saía do quarto, suspirava, mudava de posição na cama centenas de vezes – as molas do colchão e o peso de seu corpo compunham uma reivindicação ou uma súplica –, acendia uma vela aromática e a fumaça se espiralava num pedido de ajuda até que, sem resposta, sem ninguém para ler a mensagem, ela acabava cantarolando músicas de Antonio Machín – porque era o cantor favorito de sua avó morta e a única coisa que a fazia suar menos – como se fosse um pássaro com um horário tresloucado que insistia em cantar quando não havia luz, um pássaro de desenho animado que bicava seu próprio crânio todas as madrugadas, quebrando a casca do descanso da mãe morta de sua mente.
Miss Clara, embora tente disfarçar suas angústias, não o consegue, e logo se torna alvo das alunas.
O livro trata fundamentalmente do feminino. Quase todos os personagens do livro são mulheres. Os homens, quando aparecem, têm papéis secundários, cuja única finalidade é fazer aparecer as características das mulheres.
A autora tem uma técnica narrativa que vai intercalando os eventos, às vezes em capítulos, às vezes dentro do mesmo capítulo. O leitor conhece as alunas e Miss Clara por flashes, por relatos de fatos e pelos devaneios psicológicos da professora, captados por um narrador onisciente. Duas meninas se destacam do grupo e se tornam protagonistas da história. Uma delas tem descritas suas sessões de psicoterapia, onde se revelam seus pensamentos e sentimento mais íntimos e desconcertantes.
A maneira de escrever de Mónica Ojeda desenvolve a tensão na leitura, que se encaminha para fronteiras entre o sadismo, o lúbrico e o místico, chegando perto do horror.
Não é uma leitura leve. A sequência prende o leitor, que entra aos poucos no clima pesado do livro, sem conseguir largá-lo, fazendo um itinerário pelo estranho, grotesco e patológico da alma humana. Por incrível que pareça dizer, depois desta resenha, é um livro excelente, profundo, bem escrito.