Lutas

Luiz A. G. Cancello
 
Planejaram almoçar no restaurante vegetariano. Ele, a namorada, o casal de filhos dela. Antes de sair de casa queria ver o replay da luta, afinal eram tempos de Olimpíada, uma judoca brasileira ganhou a medalha de ouro, um tempinho a mais em frente à TV seria desculpável. Não teve acordo.
— Deixa disso, Juvenal, essa luta vai passar mil vezes, agora vamos almoçar.
Conformou-se, um tanto revoltado, sabia que os bichos grilo têm aversão a luta e à telinha, tanto lugar com televisão e logo hoje foram escolher esse tal. Ao menos não é caro. Paciência, tinha de fazer média com a Nina e principalmente com a molecada, era novo no pedaço, ainda estava em processo de conquista.
Teve uma sorte danada. Sentou-se no segundo andar do restaurante, de frente para uma janela. No prédio vizinho, um desses prédios de três andares sem elevador, havia uma senhora vendo uma reportagem sobre a Olimpíada. “Vai passar nesse programa”, pensou animado, referindo-se à luta, é claro. Não conseguia ouvir o som do aparelho, mas a esta altura era o de menos. A namorada sentou-se à sua frente, de costas para a janela, não via nada. Os lugares escolhidos pelas crianças, a menina ao lado da mãe e o moleque ao lado dele, não permitiam uma visão para fora do restaurante. Além do mais, os dois divertiam-se sozinhos, um arreliando o outro. Para disfarçar, Juvenal fazia um ar distraído, olhando ao longe, como se estivesse em devaneio, pensando em outras coisas.
— Você está distante, meu querido, volta pra cá e fica com a gente.
— Ah, ando preocupado com os pagamentos do início do mês, nada de muito importante.
Verdade, mas parcial, é claro. Vê o apresentador agitado, sorrindo, feliz e em seguida entra a propaganda. “Vai ser daqui a pouco”, diz quase em voz alta, mas contém-se. E não dá outra. Aparece na tela a menina franzina, nordestina, uma leoa no tatame. Comove-se, mais uma vez disfarça, não costuma dar muito espaço a patriotadas, mas o esporte traz de volta esses valores primitivos, o apego ao território, pára com isso, não é hora para reflexões. Dá uma olhada para a namorada e para os filhos, só para sondar o ambiente, mas depara-se com um detalhe estranho. Ela havia revestido os cabos dos talheres com guardanapos.
— Ué, está acontecendo alguma coisa?
— Que coisa?
— Você está pegando os talheres com guardanapos.
— Eu senti um cheiro.
A luta. A luta e o olfato aguçado da Nina, ficava frustrado por não perceber tantos cheiros no mundo, para o bem e para o mal. Quase esqueceu a judoca, agora não pode deixar o diálogo ali pendente, todos notariam o olhar dirigido para a sala da vizinha.
— Que cheiro?
— Um cheirinho de sebo. Tem gente que só lava a parte metálica desses talheres com cabo plástico. Fica meio fedido. Cheiro de dinheiro velho.
Tinha prolongado a conversa para não dar na vista seu alheamento e, quando já voltava sua atenção para a luta, a surpresa. Dinheiro velho? A piada veio automaticamente:
— Euros ou reais?
— Nada que resolva o pagamento das suas contas, meu bem.
As crianças param as brincadeiras e escutam, divertidas, as implicâncias e manias dos adultos. Não é de seu feitio deixar uma ironia sem resposta, mas a luta, será que consigo ver? Seria bom um certo estrabismo, um olho aqui e outro lá, talvez resolvesse, a gente pensa cada bobagem. Parece ouvir o som que anuncia o término dos comerciais e o início dos blocos de programa. Deve ser impressão, mas resolve conferir. Aproveita um momento em que a mulher olha para o prato e as crianças já voltam a se cutucar, estão em sintonia diferente. Dá uma olhada rápida, ali está a menina, uma fera, brasileira, nordestina, de quimono azul, prestes a enfrentar uma caucasiana vestida de branco, representando um país centro-europeu, qual era mesmo? Agarram-se. O resultado já é conhecido, mas para ele a luta tem o mesmo fascínio, não consegue manter o ar distante, o embate se acirra, há uma chave de braço, entre dentes murmura um “Vai, menina!”, para espanto da mulher.
— O que está acontecendo com você, Juvenal?
Vendo os olhos fixos do namorado voltados para fora, vira-se e vê a televisão. Controla o aborrecimento, tenta manter a ironia:
— Está paquerando a velhinha? Morando nesse apê não parece rica, meu bem, não vai pagar suas contas.
— Nem o seu dinheiro velho, meu amor. Desculpe, mas não aguentei, estava vendo a luta da menina que ganhou o ouro olímpico. Uma garota pobre, do Nordeste, venceu pelo próprio esforço e chegou lá. É um orgulho para o Brasil.
Está com os olhos marejados. A perplexidade da namorada é cada vez maior. O moleque emenda:
— Tio, você está chorando?
A menina, muito sensível, achando que Juvenal está brigando com a mãe dela, começa a soluçar. Ele, cada vez mais exasperado e dividido, muda o tom da conversa:
— Cuida do seu dinheiro velho que eu cuido da nossa nova heroína.
— Você é um grosso, Juvenal. Coisa de homem, esse gosto por luta, não entendo, que prazer mórbido.
— É uma luta de mulheres, meu bem.
— Então deve ser alguma tara.
Melhor assim, tudo escancarado, vamos então esticar o pescoço descaradamente, opa!, uma queda, a branquela está perdida. O juiz interrompe, as meninas reiniciam o combate. Nina se concentra no prato, de cara feia, as crianças logo mudam de humor e se levantam, para acompanhar a luta com o novo tio.
Finalmente a brasileira vence. Medalha de ouro. Euforia geral, ele cada vez mais emocionado, as crianças aplaudem, as outras mesas olham sem entender, se alguém soubesse da disputa entenderia menos ainda, afinal estavam vibrando por algo acontecido ontem, um replay, mas para o homem e para as crianças está acontecendo neste exato momento em que a mulher acaba de comer, levanta-se e diz:
— Vamos pagar a conta.
Há um muxoxo geral, acabou-se a brincadeira. Ele ainda queria ver a judoca subir ao pódio, quase sugere à namorada pagar com o dinheiro velho enquanto acaba a cerimônia de premiação, nem por serem velhas as notas perdem o valor, mas cala-se. Entrega o cartão de crédito para a moça da caixa, confere o preço, digita a senha, pega o papelzinho amarelo e saem do restaurante. Antes de entrarem no estacionamento ele sussurra, de si para si:
— Essa menina está com o futuro garantido. Vai ser garota propaganda de banco estatal, comentarista de televisão, técnica de futuros medalhistas. Vida ganha.
Entram no carro. O casal está sério e em silêncio. Ele tira do bolso dois guardanapos surrupiados do restaurante e, ao pegar no volante, protege as mãos. No banco de trás as crianças, também caladas, seguram o riso. Alguns minutos depois, com o automóvel já em movimento, ela nota a brincadeira.
— Deixa de ser palhaço, meu querido, pra que isso?
As crianças explodem, a risada é contagiante, a atmosfera se desanuvia. Nina acaba sorrindo e daí gargalha sem controle, Juvenal acompanha o coro desatinado sem saber o destino de suas lágrimas – os homens ou as mulheres, o ouro novo ou o dinheiro velho, os talheres ou a alma, sempre lavados pela metade. Num acesso de ternura dá um beijo no rosto da mulher. Está mesmo apaixonado.
 
Na sala do apartamento, D. Etelvina da Silva, 82 anos, professora aposentada, desliga a televisão, peida e vai à janela em busca de ar puro. Havia cochilado na poltrona. Gosta de morar só.