Apreciação de Luiz A G Cancello
Ndéné e Rama, sua namorada, estão num quarto. De lá escutam o rumor da rua. Ela pergunta se ele já viu o vídeo que circula nas redes sociais: um homem é desenterrado de sua cova num cemitério islâmico, supostamente por ser homossexual. Não poderia pertencer àquele campo santo. Ele vê o vídeo, cansado, sem motivação, como já vinha com a vida.
Contudo, o estrépito das vozes do lado de fora se recusava a cessar: eis o coro difuso de um povo cansado, mas que há muito perdera o gosto pelo sono. Falavam, se é que assim podemos chamar todas aquelas frases sem fim nem começo, monólogos inacabados, diálogos infindos, murmúrios inaudíveis, exclamações sonoras, interjeições inverossímeis, onomatopeias impressionantes, irritantes sermões noturnos, declarações de amor medíocres, palavrões obscenos.
Os rumores compreendem também a morte do rapaz, como Ndéné irá descobrindo. Aos poucos, mesmo desmotivado com sua vida de professor universitário e sem um projeto futuro definido, o destino trágico daquela vítima o envolve. Ele quer entender o que se passa, o que pode haver de razoabilidade no acontecimento nefasto. Inicia uma investigação, procurando a mãe do morto, conversando com pessoas de confiança da pequena e quase secreta comunidade LGBT do país, notadamente uma fascinante cross-dresser, em sua busca sobre a intolerância e sobre a morte. Procura e filosofa.
Enlutar-se por alguém não significa lamentar-se numa aflição estéril, autotélica; não: enlutar-se por alguém significa tentar transformar a própria aflição numa ferramenta de conhecimento, numa via de reconstrução, dentro de nós, do mundo do defunto, reerguê-lo como um templo ou um palácio, e em seguida percorrer os corredores perdidos, as passagens furtadas, as câmaras secretas, a fim de lhes descobrir verdades para as quais permanecíamos cegos enquanto ainda estavam vivos.
Muitos daqueles que aborda não falam claramente sobre os fatos. Sua família fica sabendo (por rumores) de sua curiosidade e o censura. Ndéné se depara com as palavras soltas e irresponsáveis, frases que são de ninguém. O proibido está em toda parte, aparece pelas ruas da cidade, nas conversas cifradas de grupos espalhados, nas casas e na universidade.
O que são rumores mais exatamente? A ilusão de um segredo coletivo. Um banheiro público que todos utilizam, mas cuja localização cada um acha que é o único a conhecer. Não há segredo algum no núcleo dos rumores; o que há são pessoas que se sentiram infelizes imaginando não deter um segredo ou o privilégio de uma rara verdade.
Rama, a namorada, faz o papel de arrancar Ndéne desse universo brumoso e confrontá-lo com a realidade. Ela, de uma liberdade extrema e desconcertante, confronta o parceiro com a dimensão crua da existência, abrindo um caminho na névoa do falatório. A reflexão sobre o rumor e sua raiz está presente a cada passo.
Não acredito no segredo compartilhado. (…) Para além de si mesmo não há mais segredo: há apenas um depósito, um sedimento de matéria bruta que a palavra pouco a pouco desnatura e erode até dele manter uma vaga lembrança. Chegamos então aos rumores; chegamos ao segredo morto, assassinado, esvaziado, mas que sabemos já ter sido vivo. Sob qual forma? Isso nós esquecemos. Eis o que são os rumores: o assoreamento do segredo na ilusão de sua revelação.
E qual o tema do livro? Num primeiro e descuidado olhar, podemos dizer que trata da brutal repressão ao homossexualismo no Senegal. Mas Mohamed Mbougar Sarr vai muito além. O autor faz do acontecimento inicial – a vídeo que a namorada lhe mostra – o ponto de partida para um tratado sobre a sociedade senegalesa. O rumor, que se insinua a cada passo do texto, vai se depurando e delineando um retrato da comunidade humana. Passa pelas contradições presentes em cada estrato – família, política, amigos, relações amorosas. Cada uma de suas considerações nos faz refletir sobre a nossa natureza, indo muito além daquela nação africana. E por tantas reflexões que o assunto vai suscitando, diria que é também (ou principalmente?) uma obra sobre a busca de sentido.
É um dos grandes livros que tive a oportunidade e a sorte de ler.