Luiz A G Cancello
Eram seis os irmãos de meu pai. Aqui falarei do mais velho, José, que sempre chamei de tio Juca, e do terceiro, Otávio, contando do mais velho para o mais novo. Juca era médico, o único que teve o privilégio de cursar a universidade. Estudou na Europa. As despesas para ele se formar foram muitas, deixando os outros irmãos sem essa possibilidade. Coisas da tradição oral das famílias, não sei se é verdade.
O gênio explosivo do Juca era famoso. Exercia sua profissão no interior do Rio Grande do Sul. Conta-se que, certa vez, seu carro teve uma pane mecânica numa estrada. Imagine-se que estrada seria, naquele tempo. O Juca sacou o revólver e encheu o automóvel de tiros. Casou-se com a tia Maria, de quem tenho poucas lembranças, mas devia ser uma santa. Recordo-me, bem criança, de estar na casa dele em Porto Alegre. Era um lugar cinzento, não me sentia à vontade. Nessa mesma viagem, dias depois. nos hospedamos casa da minha tia Cecy, outra irmã do meu pai, onde havia um grande quintal e primos de idades mais próximas à minha. Foi um alívio. Hoje converso pelo Facebook com a Rossana e com a Maria Nilza, netas do tio Juca. Perdi o rastro dos outros descendentes.
Otávio, o Tio Tatá, era um bon-vivant. Até onde lembro, transitava entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Foi casado com a tia Gelta, estivemos na casa deles, no Rio. Depois de separado levava uma vida boêmia, com passagens obscuras. Arrumou um filho, já em idade de ser avô. Não sei onde anda esse primo. Tio Tatá sumia uns tempos e reaparecia, sempre de bom humor, bem diferente do irmão mais velho. Quando vinha à nossa casa, em Santos, era sempre uma festa. Meu pai admirava sua desenvoltura e fala às vezes afetada, entremeada de expressões ditas em francês tupiniquim. Acho que invejava sua vida livre. Era o irmão mais querido. Hoje penso nesse tio como um grande gozador, mas me baseio apenas em lembranças da infância remasterizadas.
A família contava uma história desses dois, Juca e Tatá. As versões variam; uns dizem que foi na ocasião em que o Otávio conheceu a tia Maria, esposa do Juca. Outros falam em ocasiões diversas. O certo, se é que há um “certo” nesses relatos, é que o Tatá, ao cumprimentar a cunhada, beijou-lhe a mão. O humor ácido do Juca, contrariado, não tardou. Entredentes, mas num tom perfeitamente audível, mandou bala, evocando o passado lusitano da família:
– Sangue de galego com galanteria francesa.
Os presentes tentaram abafar o riso, mas não foi possível. A história se tornou famosa. A frase se tornou uma espécie de selo familiar. Tinha ritmo e veneno, evocava numa oposição muito bem sacada, foi dita na hora certa. Virou diagnóstico, sentença e meme. Se alguém aparecesse mais perfumado que o necessário, ou fizesse um gesto exagerado de cortesia, arriscava-se a escutar o mote. Meu irmão e eu ainda usamos a expressão.
“Galego” e “galanteria” já não fazem parte do vocabulário usual. O sangue, outrora portador das características herdadas, foi substituído pelo DNA. Ignoro se, para a nova geração, os franceses ainda retem o monopólio da finesse. Será que a história de Juca e Tatá faz sentido para nossos filhos e netos?