História da Eternidade

História da Eternidade, o livro.

Retirado de uma sinopse no site da Companhia das Letras:
 
A “História da eternidade”, que dá título ao volume, foi publicada originalmente em 1936, um ano depois da “História universal da infâmia”, como esta desafia o leitor desde o título. Uma antinomia opõe a noção de história, feita de sucessão temporal, movimento e mudança, à ideia estática de uma duração sem fim que o termo “eternidade” evoca.
O desejo de escrever uma espécie de “biografia da eternidade” que nos libertaria da opressão do tempo sucessivo sempre atraiu Borges, que jamais abandonou o interesse pelos temas deste livro, mesmo quando, mais tarde, reprova o que então havia escrito sobre eles.
 
Em tempo: já li esse livro algumas vezes.
 
História da Eternidade, o filme.
 
Antes da questão sexual (sexo versus repressão), os relacionamentos se iniciaram com diferentes fascínios – A Arte Dramática, no caso da menina e do tio; A Música, no relacionamento do cego Aderaldo e a Juventude (ou a Família ou o Estrangeiro, conforma a perspectiva) no caso da avó e do neto. A sexualidade, ao fim e ao cabo, uniformiza tudo e faz a integração com a Natureza. Nos mitos antigos, a chuva é um poderoso símbolo da fecundação da Terra pelo Céu.  
 
Se quisermos pensar a variedade da experiência humana expressa no filme, temos de tentar descrever o envolvimento de cada casal e procurar algum fio que os uma, sem uma dicotomia prévia que oriente nossa visão. Se iniciarmos as considerações pensando em sexualidade versus repressão, ou classe dominante versus classes dominadas, religião versus liberdade, de certo acharemos uma interpretação. Mas acredito que devemos nos abster dessas chaves prévias e, na medida do possível, tentar uma descrição acurada das tramas do filme, deixando que a compreensão brote de uma observação exaustiva, e não a preceda.
 
Há muito o que falar. A força dos elementos está presente em todo o filme – o sol implacável, a luz e as sombras, o mar interno de Afonsina, a chuva esperada. A sexualidade e os afetos, a sonoridade da sanfona (que dá o tom de toda a narrativa) e a morte são também forças onipresentes. Descrever o entrelaçamento de todas essas variáveis daria um volume. Enumero-as aqui para escapar de eleger duas energias que se opõem e, assim, empobrecer a análise. Queria apenas destacar alguns pontos.
 
O filma dá  uma grande ênfase no papel alimentador das mulheres. Afonsina alimenta a família, Querência leva o almoço para Aderaldo, a avó alimenta o neto. Sem dúvida um papel arquetípico e aparentemente submisso. Mas há de se notar o imenso poder feminino que é mostrado última cena. Ali, na luz intensa depois da chuva, surgem quatro mulheres, apertando os alhos e acenando umas para as outras: A Avó, Querência, Afonsina e a filha de Querência. O único homem que está presente é o cego Aderaldo – o cego, aquele que enxerga melhor que os videntes, também de acordo com a mitologia. É ele que conduz a trilha sonora, que vai dando o clima da passagem de uma cena para outra.
 
A luz estridente do exterior se alterna com as sombras dos interiores. Aquela escancara, esta con/funde (funde e confunde). O diretor usa a sombra para passar de uma história a outra; às vezes o espectador precisa de alguns segundos para distinguir onde se passa a cena, criando assim uma tensão importante, a fim de criar um determinado estado de espírito em quem assiste. Desta maneira o paralelismo das vidas vai sendo construído. O cego está a salvo da dialética entre luz e sombras. De novo: por estar numa condição peculiar, ele conduz a trama.
 
Na igreja, todos estão na mesma casa, a casa do Pai. Na festa, toda a comunidade também está junta, na casa do Prazer (ou do Mal, se quiserem). Aqui o pai de Afonsina, alcoolizado tem sua crise. No espaço sagrado a avó vai buscar seu açoite. É possível reduzir as duas cenas a diferentes “repressões”, do afeto e/ou do sexo. Mas é interessante, por outro lado, perceber a intensidade e, porque não, a grandiosidade de cada uma delas. O homem ébrio que se despe de sua autoridade e masculinidade, expondo seu desespero diante de todos, sem perder o papel de líder da comunidade. A avó que se açoita, num ato também de extremo desespero e coragem, para se manter fiel à sua crença tradicional. Aqui há uma grandiosidade, um dilema humano que as interpretações dicotômicas escondem. Os espaços sagrado (Igreja) e profano (Festa) permitem essas expressões extremas, interditas no cotidiano. Os deslizes cometidos na Festa são purgados na Igreja. Por isso depois do Carnaval vem a Quaresma.
 
A Morte é uma das dimensões fundamentais do filme. Com ela tudo se inicia – morrem um pássaro e uma criança – e com ela tudo se acaba: morrem o tio artista e o neto. O relacionamento que perdura começa com a morte do filho de Querência. Os outros dois, falidos, terminam com as mortes do tio de Afonsina e do neto. É de se notar que as mortes acontecem depois do sexo não consumado, entre tio e sobrinha e avó e neto. E antes da relação consumada de Aderaldo e Querência. Aqueles são parentes, estes apenas conhecidos que se apaixonam, cada qual na sua falta. Haverá aqui uma sutil moralidade?
 
Se quisermos, agora, podemos ver muitas dicotomias. Saindo da visão mais comum, a Sexualidade dialoga com a Morte, não com a repressão. Pois não se trata de uma oposição, e sim de uma dialética, onde cada expressão humana se com/funde (novamente!) com a outra. E assim podemos considerar tantos eixos quanto forem possíveis para enriquecer nossa visão do filme.
 
História da Eternidade trata do tempo. Afonsina almeja o futuro, almeja sair de sua vila para ver o mar. O pai destrói o seu sonho, o tio o realiza simbolicamente – e é morto. O neto vem de longe, onde o tempo é outro, dinâmico, esconder-se nesse lugar onde as horas são sempre iguais – e morre. Voltamos a Aderaldo e Querência, o terceiro elemento que subverte as dicotomias, fazendo o tempo seguir seu rumo esperado. No final do drama surge uma criança, que não se sabe direito de onde vem; supõe-se que seja uma filha de Querência. O nascimento misterioso dos heróis civilizadores é também um dado mitológico, como se vê em Jesus e Moisés. Mas talvez eu esteja forçando um pouco a barra.
 
Ao fim e ao cabo restam as mulheres, pivôs e condutoras da trama, junto com o sanfoneiro cego. Há mil histórias (e nenhuma conclusão!) dentro de uma Grande História.
 
Já vimos esses dramas em outros contextos. Fazem parte do Grande Mar de Histórias. Veremos tudo outras vezes, talvez até revendo o mesmo filme. Ou saberemos de enredos semelhantes numa conversa de amigos ou no jornal de ontem.
 
Não importava que a história já tivesse começado, porque o kathakali descobriu há muito que o segredo das Grandes Histórias é que elas não têm segredos. As Grandes Histórias são aquelas que você ouviu e quer ouvir de novo. Aquelas em que você pode entrar por qualquer parte e habitar confortavelmente. Elas não enganam você com truques e finais emocionantes. Elas não surpreendem você com o imprevisível. Elas são tão familiares como a casa em que se vive. Ou como o cheiro da pele do amante. Você sabe como elas terminam, mas, mesmo assim, você escuta como se não soubesse. Da mesma forma que apesar de saber que um dia vai morrer, você vive como se não fosse. Nas Grandes Histórias você sabe quem vive, quem morre, quem encontra o amor, quem não encontra. E, mesmo assim, você quer ouvir de novo. Esse é o seu mistério e a sua magia.” Roy, Arundhati, O Deus das Pequenas Coisas, Companhia da Letras, São Paulo, 1998
 
Não entendo de cinema. Estas considerações querem fazer uma aproximação de cunho antropológico, para somar com as apreciações psicológica e política. Obrigado por aturarem meus devaneios!