Luiz A G Cancello
Fui professor na Unisantos durante um longo período. Nos anos 70 e 80, sempre havia estudantes pedindo para entrar na minha aula para fazer algum pronunciamento político ou convocar os estudantes para assembleias. O Edu era um deles, junto com Betão, Cecílio, George e outros militantes históricos da esquerda. Eu permitia sua entrada na minha aula, pois comungávamos dos mesmos ideais. Nasceu aí uma amizade que se estendeu às décadas seguintes.
As reuniões políticas costumam se prolongar nos bares da vida. É ali que as conversas se estendem, de início ainda sérias, para depois se diluírem em temas variados, boas risadas e, não raro, assuntos pessoais. Nos botecos as amizades se consolidam, e assim também aconteceu com o Edu e eu. Depois passamos a trocar visitas e conhecer as famílias. Em 1987 convidou-me para ser padrinho de sua filha mais velha. Aceitei, com muito gosto.
Edu voou alto, voou muito. A trajetória dele é bem conhecida, de Santos para São Paulo e daí para Brasília. Tem um currículo vasto e rico. Quando presidente da Embratur, andou pelo mundo inteiro, promovendo o Brasil como destino turístico. Em outras funções também realizou muito e viajou bastante, e dessas andanças trouxe boas histórias, que trocava conosco em botecos e nas nossas casas.
O Edu sempre voltava a Santos para encontrar os companheiros da antiga. Nasceu em São Paulo, mas elegeu esta cidade com sua. Planejava se aposentar e morar por aqui. Em 29 de maio a Câmara Municipal de Santos deu a ele o título de Cidadão Santista, numa iniciativa do vereador Benedito Furtado. Das muitas homenagens que recebeu, quero crer que essa foi das mais significativas, que mais lhe tocou o coração.
Estivemos juntos ainda em agosto, na Realejo Livros, no chorinho das sextas-feiras. Já abalado pela doença, fez questão de descer a serra e rever os amigos. Dali sairíamos para um bar, a fim de prolongar a conversa e tomar uma cerveja. Ela não quis ir, pois se sentia fraco. Foi nosso último encontro fora de casa. Visitei-o ainda uma vez, poucos dias antes de seu desenlace.
Edu se despediu da vida em Santos, cercado pelos familiares, no apartamento que comprou para viver a aposentadoria. Voltou à cidade que sempre amou e pediu que suas cinzas fossem jogadas no mar. Assim foi feito.
Vejo e revejo as fotos em que aparecemos juntos. Ainda não me dei conta de que o Edu já não está entre nós. Espero, a qualquer momento, receber uma mensagem no whatsapp: “E aí? Tô em Santos. Vamos jantar?”
Publicado no jornal A Tribuna, de Santos, em 15/09/2023