Distúrbios Alimentares

Luiz A. G. Cancello

O filho teve uma desidratação brava. Levou-o ao Pronto Socorro. Lá estavam as tantas mães dos meses de calor, aquelas da diarreia. Nos meses frios a sala de espera é frequentada pelas crianças com distúrbios respiratórios, sempre com as respectivas e aflitas progenitoras. Muitas delas são assíduas nas duas estações do ano.
O garoto dormia no colo do pai, tranqüilo. A mulher sentada ao lado pergunta:
— O que tem seu filho?
— Diarreia.
Era o único homem adulto que estava ali, ficou meio sem jeito de encompridar a resposta, e não tinha mesmo vontade de conversar. O pediatra provavelmente falaria em uma infecção viral, daria um antitérmico para a febre, nada para se alarmar. Mas, por via das dúvidas e de sua preocupação excessiva, lá estava, tomando um amargo “chá de cadeira”
A vizinha resolveu mesmo puxar papo:
— Esses médicos nunca falam pra gente o que as crianças têm. E quando não sabem o que é, dizem logo que é vírus.
Ele deu um sorriso que poderia ser qualquer coisa, mas foi entendido como assentimento.
— Seu filho comeu alguma coisa diferente?
— Não, senhora.
— Nem iogurte com validade vencida? Às vezes eu não percebo que já passou da data e aí é um desastre.
Outra mãe resolveu entrar na conversa:
—Às vezes é o sol. Criança nunca sabe quando sair do sol e acaba dando nisso. É perigoso. O senhor não esqueça de dizer para o doutor que o menino tomou sol.
— Mas ele não tomou sol, minha senhora.
Agora ele já não sabia quem falava, pois resolveu olhar para o teto e ficar interessadíssimo no formato do lustre, mas não conseguia escapar do som das vozes.
— A água! A água da cidade não é tratada direito. Acho que deve ter sido alguma bactéria. Salmonela, acho. Meu cunhado teve isso. Há quanto tempo vocês não limpam a caixa d’água da sua casa?
— E a praia? A água anda um horror! Sabe como criança é, não tem cuidado, acaba bebendo qualquer água.
O menino resmungou e voltou a ajeitar-se nos braços que lhe serviam de berço. Não parecia estar interessado nas águas ou em qualquer coisa falada ao seu redor.
— É, mas está dando uma meningite viral. Um amigo meu teve isso, vômitos e diarréia. Dois dias depois, uma dor de cabeça danada. Tomou analgésico, mas piorou muito. A mulher levou-o ao hospital, e lá constataram… mas já está bem, não foi tão grave.
— Vocês deixam seus filhos comerem carne vermelha? Eu não deixo. Esses hormônios que dão para as vacas são muito perigosos.
O pai já estava para explodir. Tentou controlar-se pelo avesso, mostrando-se calmo:
— Não precisam se alarmar tanto. As crianças têm isso no verão, é normal.
— O senhor diz isso porque é pai. Nós somos mães, a nossa preocupação é maior. Os homens são mais desligados.
E o pobre sujeito escutando tudo aquilo, amaldiçoando seu excesso de zelo, lembrando-se da mulher, que era psicóloga, dizendo”: “Isso parece neurose, não é preciso levar o Júnior ao Pronto Socorro. São coisas do verão. Um soro caseiro resolve o problema.” Percebeu, irritado, que acabara de repetir o argumento da esposa.
As vozes continuavam:
— Minha filha teve uma dessas no ano passado. Foi terrível. Era para ter ficado 24 horas e ficou cinco dias internada. Sabe, pensaram até em levá-la para a UTI. Só não fizeram isso porque implorei para o médico que a deixasse no quarto. Ela acabou melhorando porque eu fiquei dia e noite ao lado dela. Acho que foi curada pelo amor da mãe.
— Muitas vezes essas coisas de barriga são psicológicas. Todas as doenças estão na cabeça, cada vez mais os cientistas estão falando isso. Sempre vejo na televisão uns psicólogos falando em Psicossomática. É o assunto da moda.
Ele murmura entre dentes um “Ai, meu saco!”, tenta manter a atenção no teto mas já não consegue, olha com o canto do olho para a mulher que acabou de falar. Pensa inevitavelmente em algumas relações entre a diarréia e o cérebro, mas resolve calar-se.
A atendente aparece na porta que leva para dentro do hospital:
— O próximo, 17!
A ficha dele era número 26. Calcula que chamam um doente a cada 10 minutos, mais ou menos. Avalia o tempo de espera, desespera-se. Resolve, cada vez mais contrafeito, dar razão à mulher e ir embora. Mas não resiste à forra. Simulando uma voz indignada, quase grita:
— O problema, senhoras, é que dei soja transgênica ao nenê. Algo de terrível pode acontecer com ele e com os filhos de todos nós. Estejam atentas. Do jeito que a coisa vai, em pouco tempo estaremos todos afetados. Nos genes, no mais íntimo de nosso ser, gerando uma descendência degradada. A Ciência não respeita mais o ser humano. Estejam atentas às campanhas contra os alimentos adulterados.
As mães de plantão ficam atônitas. O homem parece um fanático a fazer pregações contra um demônio de que mal tinham ouvido falar. Uma delas lembra-se de que assistira algo a respeito na televisão, no programa de domingo à noite. Pergunta, para quebrar o terrível silêncio:
— O senhor acha, mesmo?
— Se eu acho? Tenho certeza, cara senhora.
Começa a gostar de seu papel. Sente-se, mesmo, entusiasmado. A comercialização da tal soja, um assunto que ele praticamente ignora, passa a indigná-lo de forma inesperada. Ao ver que o moleque continua dormindo e sossegado, permite-se um exagero:
— Por favor, segure meu filho. Preciso de liberdade de movimentos para me expressar.
Sobe na cadeira da sala de espera. Discursa com veemência contra os absurdos da modernidade.
— Onde vamos parar? Nós, que fomos alimentados com o leite da vaca e com plantas livres de inseticidas, o que estamos deixando que façam com nossa família? Permitimos que comam o peixe de nossas praias, agora contaminadas com petróleo? A carne cheia de hormônios, como já disse alguém aqui?
Por sorte ou não, havia lido dias atrás uma reportagem sobre o tema em uma revista semanal. Regozija-se por sua memória. As palavras parecem vir espontaneamente à boca, embora as saiba plagiadas.
— Tudo isso é um despropósito. Alguém precisa acabar com esse estado de coisas. Desde já convido-as para integrarem a nossa Associação contra os Alimentos Transgênicos. Liguem hoje mesmo para 234-5678 e filiem-se.
Assusta-se com o próprio discurso. Claro que a entidade nunca existira. Sente que agora passou dos limites. O segurança do Pronto-socorro está prestes a intervir. Respira fundo, tentando acalmar-se, desce do palco, pega o filho de volta. Diz um “Até logo, senhoras” e resolve sair antes de ficar completamente constrangido.

Chega em casa preocupado com o episódio. Resolve contá-lo resumidamente à mulher. Esta, compreensiva, depois de dar um soro caseiro ao filho, pergunta ao pai, entre carinhosa e preocupada:
— Bem, você não levou a coisa muito longe. De algum modo, sua parte sadia percebeu que o discurso estava escapando do controle. Lembra-se de algo, de alguma sensação ou lembrança que o fez interromper a cena?
— Lembro.
— O que foi?
— Achei que estava saindo do normal quando dei pra elas o telefone do seu consultório.