Dia de cão

Luiz A. G. Cancello

Quem cruza as pernas para desamarrar o tênis nota as curiosas linhas da sola do calçado. A parte frontal é formada por diversos tipos de polígonos, apresentando uma estrutura irregular, um xadrez de linhas curvas. Entre essa composição e a traseira, bem no meio do pé, há uma figura diversa, tiras grossas de borracha armam um leque pouco espalhado. O salto tem uma borda também espessa, em cujo interior se destaca outro tipo de trama.
Dizem os entendidos, nas revistas especializadas, que cada um desses desenhos tem uma razão de ser. Pesquisados exaustivamente em computador, destinam-se a evitar derrapagens, a melhorar o desempenho de atletas, existindo, mesmo, padrões apropriados a cada modalidade esportiva. São diversos labirintos, vistos de cima, semelhantes aos que encontramos nos livros infantis. Com um traço firme do lápis achamos o caminho da liberdade.
Seguindo o pensamento perdido nas reentrâncias e saliências, as lembranças evocam outra história, acontecida fora das pistas e das quadras. Para melhor apreciar a cena, é preciso aprisionar o homem em marcha e pôr a memória a funcionar em câmara lenta. Ele ia de casa até a praia, para correr seus cinco quilômetros, como fazia quatro vezes a cada semana. Andava tranquilo pela calçada interna de um dos canais da cidade, lugar com grandes árvores plantadas a cada dez metros. Faltariam umas quatro quadras para que chegasse à areia.
Era um sábado, por volta das nove horas da manhã. Não sabe precisar em que momento a sola do tênis de seu pé direito tornou-se escorregadia. De repente, sentiu que já não tocava o solo como antes, havia uma mudança de qualidade no contato com o chão.
Começou a andar com mais cuidado. Olhou para todos os lados, pesquisou cada ponto cardeal, certificou-se de que não estava sendo focalizado por uma das tantas câmeras de radar que infestavam a cidade, elevou a vista para as janelas dos prédios. Poucas cabeças vigiavam a rua àquela hora, e essas prestavam atenção a outros pontos, ao mar que era visível dali, a um ou outro carro que passava, deixando seu tênis livre de exame. E que poderiam ver, se o problema estava sob a sola? Mas, como sabemos, em tais circunstâncias temos a certeza de que convergem para nossos pés todos os olhares do mundo, em forma de raios X, numa flagrante violação ao direito à opacidade. Que tipo de cena se apresentaria para tais supostos espectadores? Um homem que, de repente, diminui a velocidade de sua marcha. Durante alguns metros passa a pisar o chão com a ponta do pé direito, como um bailarino pela metade; para, gira a cabeça para os quatro cantos do mundo, vacila por segundos, discretamente dobra o joelho e, com rapidez, verifica a sola do tênis, voltando a colocar o pé no calçamento. Passa o pé no meio-fio, em plano inclinado, fazendo uma expressão aborrecida. Depois disso, sua conduta ambulatória sofre outras alterações. Já não anda em linha reta. Detém-se no canteiro que rodeia cada tronco de árvore e ali esfrega o calçado, não antes de certificar-se de que está só, livre de vigilância. Continua a caminhar, mas percebe-se que seu olhar se dirige para baixo, como quem procura um objeto perdido, talvez a chave de casa, que deixara cair. Logo se vê que não era esse o propósito, pois, assim que vislumbra uma pequena poça d’água na sarjeta, restos da chuva de anteontem, faz uma expressão alegre. Vai até ela e molha o tênis. Bate com o calcanhar no meio-fio, com a força exata para não se machucar, mas suficiente para desprender algo que estivesse preso na sola. A esta altura, é claro, nosso hipotético voyeur já saberia a razão do comportamento bizarro a que esteve assistindo. “Pisou”, constataria, com humor ou pesar.
Mas o estranho andar do caminhante não se limita a estas manobras. Agora ele novamente esquadrinha o chão, desta vez com vista mais aguçada, como quem perdeu um objeto pequeno, um brinco, por exemplo. Isto não seria provável, pois esse homem não usa tais ornamentos; deve ser coisa diversa. Enfim ele se abaixa e pega um mero palito de fósforo. Senta-se então na murada do canal, esquadrinha a rosa dos ventos para certificar-se ainda uma vez de sua pretensa invisibilidade, coloca o pé direito sobre o joelho esquerdo, com a sola virada para cima, e passa o pedaço de madeira fina nas reentrâncias da sola do calçado. Executa a tarefa com paciência e concentração, como um escultor que dá, com cinzel fino, os retoques finais em sua obra. Já nem percebe o transeunte que, fingindo não vê-lo, passa à sua frente. De vez em quando limpa o instrumento de trabalho numa folha seca que também pegou na calçada. Terminada a tarefa, joga-a nas águas do canal, sem culpa; livrou-se de materiais degradantes, mas biodegradáveis.
Levanta-se e faz um gesto de limpar as mãos na bermuda, mãos que supostamente não foram sujas, mas é um ato automático, uma satisfação que dá a si mesmo, como tantas outras que se dá na vida, sem sentido aparente. De qualquer modo, tem nesse instante um ar jovial, o aspecto saudável de quem fez a coisa certa. Passa a andar até mais ereto. Diria quem o visse: aí vai um homem seguro de si.
Tudo estaria em seus lugares, naquele sábado de sol, a corrida de 5000 metros, o papo com os amigos, o prazer de voltar da praia suado e orgulhoso do desempenho e tomar uma ducha fria, não fosse mais um detalhe. Tânia, dona de casa, 40 anos, casada, uma filha ainda pequena, amante de cantores românticos e abolerados, devoradora de livros de autoajuda, moradora do terceiro andar de um dos muitos prédios que se erguem na avenida do canal, acordava cedo todas as terças, quintas, sábados e domingos e punha-se discretamente à janela. Há um mês observava o rapaz de uns 30 anos que fazia jogging nesses dias, às nove horas da manhã, com chuva ou sol. Foi tomada de uma atração inexplicável pelo desconhecido, essas coisas não têm mesmo razão de ser, uma figura que passa e marca, o jeito de andar, a esperança de sair do labirinto. Poderia servir-se de uma das muitas explicações prêt-a-porter de sua literatura predileta: forças cósmicas, energias afins, insatisfação com o matrimônio, instinto materno, idade da loba, compensação de frustrações, traumas de infância, quem sabe até mesmo atração pura e simples. Mas nenhuma delas a satisfaz.
Neste final de semana resolve descer e fica no saguão envidraçado, de onde pode vê-lo mais de perto. Observa que, de repente, o homem para e apoia, com elegância, a ponta do pé no chão, como se tivesse machucado o calcanhar. Pensa em correr para ajudá-lo, mas contém o ímpeto. Ele procura algo ou alguém, examina a rua e os edifícios, quase cruzam os olhares, mas o vidro escuro impede esse encontro desejado e proibido. Está aflita, nunca o viu deter-se ali, na calçada do outro lado da avenida, em frente à sua morada, e coincidências não existem, segundo ensinam os mestres. Agora uma árvore o esconde, este jogo é mesmo excitante, ele sumiu depois de olhar a sola do pé. Aguarda ansiosa, finalmente o vê ressurgir e molhar o tênis na sarjeta. A mulher começa a perceber. Tem em casa uma escova própria para esfregar os sapatos do marido, quando coisa semelhante acontece. Lamenta-se por não ter a coragem de oferecê-la ao rapaz, que está, neste momento, sentado na mureta do canal. Pela primeira vez podia observá-lo nessa posição, de pernas cruzadas, é uma outra imagem, como se estivesse no sofá do apartamento, conversando com ela. Ri do jeito concentrado com que ele explora as reentrâncias e saliências da sola do tênis; é um riso carinhoso, compreensivo, acolhedor, riso de mulher cativada. Quando o rapaz se levanta ela sabe que, por enquanto, o espetáculo vai ficar suspenso. Qual Penélope sem tapete, daqui a uma hora estará a postos para acompanhar a volta de seu atleta, que agora esfrega as mãos na bermuda e segue em frente, como se nada tivesse acontecido. Tânia acompanha seu andar firme e altivo, a marcha de um homem que pretende tomar posse do horizonte.
Ao atingir a areia fofa, mais distante do mar, Rogério caminha de modo esquisito, arrastando os pés. Pretende que uma certa quantidade dos minúsculos grãos onde pisa grude no que restou de material pastoso em seu tênis direito. Faz isso durante uns cinco minutos, vê-se que cumprimenta um conhecido com suposta naturalidade, mas o outro não pediu explicações para aquele estranho jeito de andar, ou não percebeu nada de anormal. No sábado estão alegres todos os que podem desfrutar a manhã ensolarada, as pessoas acenam umas para as outras, quem é mesmo aquele cara? Não importa, devo conhecê-lo de algum lugar.
Depois de fazer na sola do calçado uma crosta parecida, digamos, com um bife à milanesa, o atleta amador vai correr no calçadão que acompanha a praia. Hoje acordou seguro de si, sentindo toda a energia dos 30 anos, pretendendo melhorar seu desempenho, um simples acidente de percurso não deve atrapalhar seu objetivo. Toma posição ao lado do marco zero, depois de Kenneth Cooper tais balizas foram colocadas em todos os lugares do mundo que podem servir de pista de corrida, aciona o cronômetro e parte. Mas está cismado, a julgar-se pela frequência com que olha para baixo, em direção ao pé direito. Já nos primeiros metros nota-se que pisa forte, bate o tênis no chão, ainda não viu desprender-se a película formada na areia fina. Passa outro corredor em sentido contrário, muitos praticantes habituais desse esporte costumam saudar-se, mesmo sem terem sido formalmente apresentados um ou outro, é um caso de espírito de corpo, a expressão bem o traduz. O gesto de mão e o sorriso ainda saem tímidos, é evidente que algo preocupa Rogério, e sabemos do que se trata. No marco de 2500 metros ele retorna, faz uma curva aberta, aperta os lábios e acelera; ao que tudo indica, tenta concentrar-se na performance, precisa esquecer o incidente do canal. Está de olhos quase fechados, o esforço é grande e também a fadiga, o pé direito vacila, o tornozelo dobra para dentro, o homem passa a pular em uma perna só, a esquerda, como é de fácil dedução, saci sem rodamoinho, nas mitologias de hoje os personagens estão um tanto descaracterizados. Senta-se desolado num banco de cimento, o sol já não brilha do mesmo jeito, o mundo e a manhã perdem a graça. Examina a torção, mas a primeira coisa que verifica é a limpeza da sola do tênis, percebe-se pela expressão ambígua de curiosidade e sofrimento. Mas a dor faz com que os problemas migrem das reentrâncias e saliências para os músculos e ossos. Desenha círculos no ar com a ponta do pé, executa o movimento com vagar, avalia o estado da articulação. Depois de balançar a cabeça, em desalento, levanta-se e anda com cuidado.
Volta para casa tentando não mancar, como um homem falido que ostenta ainda as vestes dos tempos de fausto. O rosto, porém, trai o intento. A boca está crispada, o olhar duro, com certeza a perspectiva de passar um bom período sem correr o desagrada. Mesmo a marcha é diferente, perdeu o garbo. Precisa atravessar a avenida da praia, espera impaciente o sinal para pedestres dar a permissão, seria perigoso arriscar um sprint entre os carros que passam. Uma vez no canal, com o humor visivelmente alterado, lembra-se de que precisa de atenção para não repetir seu mau passo, por assim dizer. Caminha com os olhos pregados no chão, até procura o lugar do incidente há pouco quase esquecido. Logo vê os sinais deixados no meio-fio por seu pé direito. Faz uma careta do asco, franze o nariz, desvia-se e segue em frente.
Tânia desce com antecedência, que sorte, hoje ele está voltando para casa mais cedo. Mas o trânsito, a esta hora, já é mais intenso na avenida do canal. Lá vem ele, mas parece mudado. Está mais curvado? Arrasta os pés? Por que a expressão triste, o desânimo? Ficou mais velho, de uma hora para cá? Tinha visto, na televisão, uma história onde o tempo passava em velocidade diferente para cada personagem e teve medo. Os carros param no semáforo adiante, formam uma fila, o homem só é visto quando passa nos espaços que se formam entre os veículos. Sua imagem fica fragmentada, já não é um filme que ali se desenrola, mas uma sequência de slides. Cada intervalo entre os quadros dura eternamente. Uma aflição muito intensa toma conta de Tânia, o coração arrebenta-lhe o peito, tem vontade de chorar, sente a dor de quem está perdendo um ente querido. Corre até o elevador, da varanda do terceiro andar teria uma visão melhor, embora distante. Quando chega lá, Rogério está fora do alcance dos olhos, entrou numa travessa que ela nunca soube qual era. Intui que ele não passará nos próximos dias, o sabor da vida escorre nas lágrimas, é preciso preparar o almoço, já são mais de dez horas e hoje a empregada está de folga. Afaga o cãozinho da casa, que vem consolar a dona. Só então levanta a hipótese de ter sido ele o responsável pelos problemas de seu atleta. Levanta o bicho à altura do rosto, beija-o e diz, com a voz dúbia de quem agradece e repreende:
— Ah, seu porquinho!
Rogério chega ao edifício em que mora e entra no elevador de serviço. Automaticamente leva o dedo ao painel, quando escuta uma voz de mulher gritando para que espere. É Luiza, que fora ao supermercado e chega com uma sacola. Dá um beijo no marido, bico contra bico, afinal ele está suado, aciona o botão número 7. A porta se fecha. Na altura do segundo piso a mulher sorri, ele faz o possível para ser agradável, já sabemos de seu estado de espírito. Ela faz que vai abrir a boca, sinal de que esboça um comentário rápido, como têm de ser as conversas nesse ambiente, mas cala-se. Quando o número 4 aparece no mostrador, o rosto dela está alterado. É claro, agora, que tem algo a dizer. Olha, contrafeita, a câmara no canto do teto, transmitindo suas imagens para a guarita do zelador e, correm boatos, para a casa do síndico. Comporta-se como se cada uma de suas possíveis palavras fosse irradiada para o prédio inteiro. Espera que chegue o sétimo andar, está mesmo impaciente. Assim que abre a porta, desabafa:
— Caralho, que cheiro de merda!