Folha de São Paulo – 30 de junho de 1996
Caderno “MAIS!”- pg. 8 – Sessão “NOVOS AUTORES”
Cenas miseráveis da classe média
BERNARDO AJZENBERG
Secretário da Redação
Uma tarefa embaraçosa do autor é revisar o escrito e separar fria e firmemente, para jogar fora, aquilo que nele não presta. Apesar de penoso, esse discernimento e o respectivo corte de palavras, às vezes de trechos inteiros mesmo não havendo limitação espacial como no Jornalismo , são no entanto essenciais, espécie de segundo ato da criação.
Tal regra vem à mente quando lemos ‘Dia a dia: Fragmentos”, estreia em ficção do músico e psicólogo Luiz A. G. Cancello.
São contos que retratam, como sugere o titulo, realidades cotidianas de famílias e/ou indivíduos de classe média, situadas na maior parte na cidade de Santos, litoral paulista.
A primeira constatação é de que o livro, no seu conjunto, é bastante irregular e provavelmente não haveria resenha sobre a obra, neste espaço, não fosse a força específica que mais ou menos a metade dos seus contos possui.
Com efeito, em 15 de suas 29 histórias, Cancello mostra ter um programa literário próprio a ser desenvolvido. “Escravo”, por exemplo: um homem se sente atraído por uma mulher extremamente feia e, quando vai ver, apesar de sua hesitação, está nos braços dela. Aos poucos, o autor cria um clima de alta tensão, num cenário de praia e chuva, conduzindo a imaginação do leitor para cenas inusitadas de importante impacto dramático (entrar em detalhes, aqui, estragaria a leitura).
Outro exemplo é “Órbitas”, em que uma mulher de seus 30 e tantos anos, sentindo se traída pelo marido, sai em busca de soluções junto a leitores de tarô e companhia limitada. Cancello atinge fina ironia nessa história, expondo, por exemplo, o quanto um astrólogo, ao receber a moça, se desvia de seus astros durante a consulta para, involuntariamente, concentrar se nas curvas bem cuidadas da freguesa. A mesma ironia sutil aparece no divertido “Quebra cabeças”, história na qual um casal, ele psiquiatra, ela psicóloga, tenta, com técnicas a princípio sérias, mas que se tornam risíveis, resolver o que consideram um problema de ordem comportamental na pacata filha de três anos.
Mais um exemplo interessante está em “Pedaços” – nada a ver com os “fragmentos” do título -, em que, habilmente, o autor consegue fazer com que os produtos fecais de marido e mulher recém-casados “conversem” entre si. Leia para crer.
Ou ainda em “A Cueca”, saboroso relato dos tormentos por que passa um executivo mediano quando, ao amanhecer, constata ter deixado a cueca, usada, junto à pia de um banheiro de uso coletivo e que ela passara ali a noite toda (“Todo mundo levanta à noite para ir ao banheiro. E daqui a pouco, na mesa do café? Ele, o homem de meia idade, as têmporas descoradas sugerindo respeito, seu nome lembrado para gerenciar a firma, todo esse cabedal edificado a duras penas seria exposto ao ridículo”.)
Os exemplos acima e mais alguns como que dão sustentação ao livro de Cancello. Vários dos demais contos, porém, ficam distantes desse nível de originalidade. Estão corretamente escritos, é verdade, muitos deles possuem coerência temática entre si, expondo de modo impiedoso a hipocrisia preponderante em grande parte das famílias e dos casais, mas têm sabor de coisa já lida.
São também pequenas histórias de cunho sentimental, algumas elucubrações sem maiores voos; em certos casos, parecem mera reconstituição de cenas “trevisinianas” (é realmente difícil escapar de Dalton Trevisan quando se escreve sobre o cotidiano de casais de classe média baixa, parece que o autor curitibano já escreveu tudo o que se podia escrever a esse respeito).
Cancello deveria ter peneirado seu volume de contos, concentrando o para ficar com metade deles. A obra ganharia em seu conjunto. O leitor teria a sensação plena, aqui dispersa, de estar diante de algo singular, esquisito, artístico.