Apreciação de Luiz A G Cancello
Na vasta obra do historiador das religiões Mircea Eliade encontramos um livro chamado “A Nostalgia das Origens”. O texto aborda a volta aos primórdios, marca reiterada na história intelectual do Ocidente, mais conhecida pelo tema do “Eterno Retorno” nietzscheano. O início, como o Jardim do Eden, é o lugar puro, de onde os homens partiram em sua jornada e macularam a vida com suas imperfeições. Voltar à origem é a tentativa de mergulhar na pureza, refazer o percurso, agora sem pecado. O Mito do Herói, em suas múltiplas versões, também é uma jornada de retorno, depois dos tantos feitos e peripécias. Ulisse volta a Ítaca, sempre.
O filme “Cidadão Ilustre” apresenta um regresso à aldeia natal, mas subverte o mito original. Não é clara a motivação do protagonista. Na cena em que resolve ir a Salas, Daniel acaba de ouvir uma série de convites para palestras em diversas partes do mundo, inclusive em sua cidade natal. Em princípio recusa todos, mostra-se cansado, sem vontade. Levanta-se e anda um pouco, para e olha para o infinito. A trilha sonora indica que algo se passa em sua cabeça, uma ideia que norteará a sequência do filme. Ele se volta para sua secretária e diz: “Salas”. Não se sabe o motivo da escolha, parece uma decisão impensada, mas é de se notar que vem num momento de desencanto, quando nada mais parece valer a pena. E então, aproximando-se do final de sua trajetória literária, aparece a oportunidade de um possível resgate. Mas resgatar o quê? A julgar pelo filme, nem Daniel sabe, mas apronta-se para partir. Sozinho.
Os acontecimentos em Salas se precipitam por linhas desencontradas, desde a moça em sua cama, filha da ex-namorada, até o bizarro concurso de pinturas. É notável, no entanto, a ocasião em que vê um vídeo mostrando cenas de sua infância. Nesse momento as lágrimas vêm, aqui está o resgate – talvez o que viera buscar? Mas em todo o restante das cenas ele se defronta com o que já não é. Mesmo um antigo amor não se materializa. Encara o dilema do imigrante: é parte daqui e de lá, sem ser integralmente nenhum deles. Talvez desde sempre sinta isso. Afinal, seus personagens são argentinos, aldeões, elevados aos píncaros da escrita ocidental. Desde sempre Daniel lida com os dois mundos.
A julgar pela ironia com que descreve o fazer literário, pode-se pensar ainda numa busca de identidade, em termos de alcançar uma essência sólida e inquestionável. Mas ele é um quase europeu, um homem do intelecto, não vai se permitir ser desmontado para depois se remontar, como ocorre nas buscar radicais pelas origens. Há no filme uma sugestão de renascimento, tema comum nas buscas dos heróis, quando é alvejado pelos caçadores de porcos. E novamente impõe-se o iluminismo europeu: ao discorrer sobre o que é real ou ficção em sal obra, já de vota à Espanha, mostra sua cicatriz e provoca a plateia, questionando a marca na pele como signo ou realidade.
Cidadão Ilustre nos mostra como estamos, a um só tempo, perto e distante dos mitos fundantes de nossa cultura.