Luiz A G Cancello
Comecei a usar cavanhaque aos 20 anos. Eu estava sentado num banco, no pátio do Instituto de Psicologia da Universidade Católica de Campinas, conversando com meu amigo R., um jovem flautista. Fazíamos saraus e serenatas, coisas de então. Além de músico, ele era um excelente desenhista. De repente olhou para mim e sentenciou:
– Você ficaria bem com um cavanhaque. Tem o queixo muito pequeno.
Ora, nunca me considerei um micrognata, fique surpreso. Ele pegou um papel, desenhou meu rosto e rabiscou uma barba suficiente e o bigode. Fique surpreso, estava ótimo. Imediatamente resolvi deixar crescer os pelos adequados e adquirir um novo layout. Assim foi feito. Depois de um ou dois meses, não me lembro, eu tinha uma nova marca, já bem delineada. Alguns poucos psicólogos usavam barba, mas estava longe de ser um hábito comum, como hoje.
Acontece que, nessa época, ainda se escutava no rádio e na TV um resto da Jovem Guarda. Dois cantores, Dino e Deno, ambos com cavanhaques, faziam sucesso com uma canção chamada “Coruja”. Está no YouTube para quem quiser conferir. Muitas vezes, quando eu andava na rua, algum engraçadinho me via e cantava o refrão: “Coruja, ah, ah, ah”. Eu não achava graça, aquilo me enchia o saco, a ponto de eu pensar em deslizar a Gilette para os sítios peludos recém conquistados. Mas resisti. Aos poucos o uso de barba foi se tornando comum, Dino e Deno saíram de moda e passei a andar em paz.
Uma só vez voltei a ficar de cara limpa, quando meu filho mais velho, aos 7 anos pediu:
– Papai, quero ver seu queixo.
Fiquei chocado com a figura que emergiu do desejo do garoto. Tirei uma foto, hoje guardada numa caixa bem no fundo do maleiro, e voltei a deixar crescer minha identidade já então característica.
A vida prosseguiu. R, tomou seu caminho, desde o fim da faculdade eu nunca mais soube dele. Muitas vezes contei a história de como passei a usar cavanhaque, as pessoas achavam interessante, e o assunto acabava aí.
Um dia, no aniversário de 90 anos de minha sogra, voltei a relatar o caso para um amigo e sua esposa. Ele disse imediatamente:
– Desenhista e flautista? Mais ou menos da sua idade? Esse R. é meu primo.
Eu estava com 79 anos e, de repente, o responsável pela minha cara, pela minha figura pública e privada, o sujeito que me desenhou, estava ao alcance de um contato. Perguntei seu nome completo, o que fazia na vida, onde poderia ser encontrado. Soube que fez uma carreira interessante, trabalhou no exterior, graças a seus dotes de desenhista. Consegui localizá-lo em duas redes sociais. Tinha se tornado um bolsonarista convicto, desses que se enrolam em bandeira. Mesmo assim enviei uma mensagem simpática, localizando aquele evento decisivo no pátio da faculdade, dizendo que ele tinha sido o responsável pela cara que usei desde então, há quase seis décadas. Imaginei que poderíamos ter uma conversa interessante, passando ao largo das divergências ideológicas.
Minha sogra já fez 91 anos. Lamento o final sem graça, mas R. nunca me respondeu.