Luiz A G Cancello
Sempre fui friorento. No inverno sinto um vento gelado que percorre os lugares onde estou, esfriando a nuca e as orelhas, fazendo o nariz fungar. Não sei se vem das frestas não vedadas das janelas, dos vãos sob as portas fechadas, de alguma fenda misteriosa que se abre nas paredes e na alma, nos dias frios. Muitas vezes a corrente de ar é sentida nas pernas e nos pés. Desconfio que passem por baixo dos vãos das portas. Os maníacos como eu dão um nome diminutivo ao fenômeno, sempre o chamam de “ventinho”. “Tem um ventinho aqui, vê se calafetaram todas as possíveis entradas de ar”, é o nosso brado constante nesta estação ingrata, de baixas temperaturas.
Por esses motivos sou um adepto do capuz. Essa indumentária, que deveria fazer parte obrigatória do figurino, ao menos de junho a outubro, traz um conforto indizível para seres como eu. Protege a cabeça e suas partes sensíveis, principalmente as já citadas nuca e orelhas. Traz uma sensação de acolhimento, de proteção. Os monges medievais, os capuchinhos, sabiam das coisas.
Por caminhos que eu ignoro e a sociologia talvez explique, essa nobre peça do vestuário é hoje relacionada também aos manos, rapazes de poucos recursos, associados à marginalidade pelas classes dominantes. Talvez por esconder um pouco o rosto, ou para se proteger da noite onde costumam vagar. É uma associação preconceituosa, mas pode inibir alguns a usar um recurso tão útil para a proteção contra o tempo impiedoso. Atribuído aos monges e aos manos, à santidade ou ao perigo, o capuz fica deslocado na cabeça do homem comum, nem santo nem pretenso marginal.
É estranho notar que muitas pessoas usam o moletom com capuz e boné, outra peça de indumentária que daria um ensaio. Parece uma redundância, os dois servem para proteger a cabeça, com vantagem indiscutível para o capuz, muito mais eficiente. Por certo é uma questão estética, os bonés apresentam logotipos de marcas famosas, e seu concorrente não se deixa conspurcar por símbolos de consumo. Exibindo branding, fica-se elevado à categoria de sujeitos da moda, livres de outros estigmas.
Comprei ontem mais um moletom com capuz e cordinha, para fechá-lo ao redor do rosto. Usei-o num bar aberto, em rua movimentada, onde passaram alguns conhecidos. Houve os inevitáveis comentários, nada originais, em geral na linha monástica. Não nego que me aborrecem, mas prefiro defender-me dos ventinhos da estação, que sopram com insistência da praia para a cidade.
O capuz traz sensação de conforto, aconchego, proteção. Renunciar a isso por causa dos olhares alheios é uma traição consigo mesmo. Proponho uma reintegração de posse dos capuzes. Temos direito a ele. Precisamos nos organizar. À luta!