Luiz A G Cancello
Há muito tempo ganhei uma bermuda especialmente confortável. O pano leve tem boa textura e cai bem, a costura não aperta partes sensíveis. De início estranhei a cor, rosa, mas deixei os resquícios de machismo de lado e passei a usá-la com frequência.
Só havia um problema. A peça tinha alças para a passagem de um cinto, mas tinha também um cordão grosso, para ser amarrado na parte da frente, com um laço, como se dá em sapatos.
Eu sempre uso camisetas por fora das bermudas, então o tal laço ficava escondido, sem função estética. Como também era de pouca serventia para manter a cintura apertada, pois laceava facilmente, a rigor não servia para nada.
Tentei tirar o cordão pelos orifícios da fazenda, mas não consegui. De algum modo era preso no pano da peça. O jeito seria cortar as pontas, sacrificando o modo original da bermuda, o que me desagradava. Tento manter minhas coisas em seu estado primordial, velho costume herdado do meu pai. Há um quê de profano quando alteramos a feição arquetípica de um objeto. Raramente a mudança leva a um aperfeiçoamento. Podem me chamar de conservador e pessimista.
Voltemos ao fio inicial. Eu nunca dava o laço, colocava os cordões para dentro da roupa e usava um cinto. Não é difícil imaginar certos desconfortos, conforme o lugar onde iam parar. E assim convivi com minha bermuda por muito tempo.
Um desses dias, depois de anos – sim, minhas roupas duram muito – num ímpeto, peguei uma tesoura e cortei os cordões, rente à saída dos orifícios. Pensei que me sentiria eufórico, algo próximo ao nirvana, a libertação, enfim. A satisfação foi meia boca e muito rápida, durou até o momento de jogar os pedaços de fio no lixo do banheiro.
A vida, altiva e debochada, continuou como se nada de grandioso tivesse acontecido.